sábado, 30 de abril de 2016

Pedras ao sol



ENTRE UMA INFINIDADE de outros benefícios menos relevantes, a Astronomia e a Geologia têm a extraordinária capacidade de nos pôr em nosso devido lugar, lembrando que não passamos de um cisco de um cisco de poeira perdido em meio a uma conflagração de proporções e conseqüências tão gigantescas e poderosas que nossa limitadíssima mente de macaco pelado seria incapaz de compreender.
A Astronomia, é claro, sempre foi mais eficiente, freqüentemente brutal, na tarefa de deixar bem claro, e em apenas alguns poucos segundos de superficial reflexão, que a vida definitivamente não deve ser levada muito a sério.
Não obstante nossa total incapacidade de realmente conceber as cifras literalmente astronômicas envolvidas na eterna especulação sobre a criação, a idade, a natureza e o tamanho do Universo, não é muito difícil imaginar-se um fragmento de coisa nenhuma antes mesmo de começarmos a falar de pulsares, quasares e buracos negros — embora haja quem comece a sentir vertigens antes mesmo de deixar a estratosfera.
A Geologia, entretanto, apesar de nos oferecer uma visão limitada, localizada, pontual, do grande drama do Universo, nos é mais compreensível. Accessível. Palpável. Ousaria dizer, mais humana. Afinal, lida com conceitos que não são tão teóricos e não nos parecem tão alienígenas quanto aqueles com os quais nos vemos às voltas toda vez que nos debruçamos sobre as abstratas e insondáveis eternidades da Astronomia.
De modo geral, todos sabemos o que é uma cadeia de montanhas, um deserto, um vulcão, um terremoto. Todos já tocamos a face de um paredão de granito ou já deixamos areia de praia escorrer por entre os vãos dos dedos. Grosso modo, conhecemos os atores e o cenário da história. E, talvez por isso, este pequeno drama representado em um pequeno planeta na periferia de uma galáxia vagabunda perdida no meio do vasto universo nos pareça mais dramático, mais pungente, mais real do que a grandiosa ópera do Cosmo.
Ora, levando o raciocínio às últimas conseqüências, não é difícil concluir que, para de fato compreendermos quão minúsculos, efêmeros e desprezíveis somos nós, os seres vivos que habitam este planeta, você nem mesmo precisa ler todo o libreto. Talvez, baste se apegar a uma única cena, um único penedo, um mero aglomerado de rochas muito antigas avançando mar adentro para se ter uma visão ainda mais sintética, embora muito mais visceral, de toda a trama.

Qualquer criatura desavisada que se posicione sobre o ponto mais alto da Ponta do Arpoador e corra os olhos sobre o Dois Irmãos, a Gávea e o maciço da Tijuca, há de pensar que aqueles imponentes gigantes de pedra sempre estiveram (e sempre estarão) ali onde estão. Que fazem parte do rol das coisas imperecíveis e imutáveis que Deus colocou sobre a face da Terra para nos dar notícia da transitoriedade de nossas prosaicas existências. A própria pedra sobre a qual está pisando e que lhe serve de observatório, embora mais modesta em tamanho, lhe parecerá tão sólida e eterna quanto as estrelas do céu — as quais, entretanto, também estão longe de qualquer eternidade plausível.
O que é de se entender. Afinal, aquele belo conjunto de pedras já estava ali quando seu tetravô primeiro pisou em terras americanas, ali esteve ao longo de toda a sua infância, juventude e idade madura e, aparentemente, ali estará após a sua morte; e até o fim dos tempos.
Pura ilusão. Em realidade, não fosse a Terra um planeta tão “dinâmico”, com um belo núcleo de magma, vulcões ativos e placas tectônicas não consolidadas, nada disso existiria e a superfície do planeta seria inteiramente coberta de água, conformando um único e monótono oceano. Qualquer cadeia de montanhas, qualquer massa continental que outrora existisse sobre a superfície, já há muito teria sido erodida pela ação implacável da água, da areia e do vento.
Para a nossa sorte, porém, nossos vulcões entram em erupção de tempos em tempos e nossas placas tectônicas se chocam umas contra as outras, formando continentes, criando ilhas, erguendo-se em grandes cadeias de montanhas ou abrindo-se para formar novos oceanos. O processo é lento, mas contínuo, e apesar de toda devastação provocada por suas ocasionais convulsões, tais cataclismos são um dos principais responsáveis pela existência de vida em um planeta que, de outro modo, além de se tornar um tanto aborrecido, teria de trocar de nome — e de elemento.
Para explicar como e por que as pedras que abraçam a cidade do Rio de Janeiro são como são e estão onde estão, precisaremos embarcar em uma máquina do tempo virtual, movida a ciência, bom senso e uma boa dose de imaginação. Em poucos segundos, atravessaremos diversas eras geológicas, aprofundando-nos no passado remoto, chegando ao fim do Período Pré-Cambriano, há mais de 600 milhões de anos.
O planeta que encontramos então é muito diferente da Terra em que vivemos hoje em dia e, caso pudéssemos vê-lo de cima, não seríamos capazes de distinguir as massas continentais que afloram dos oceanos. Estamos em algum ponto no limiar da placa sul-americana, ou daquilo que, em um futuro muito distante, virá a constituir o continente sul-americano.
A paisagem, é claro, em nada lembra o caprichoso perfil do Rio de Janeiro atual. Ao nosso redor, sob um sol abrasador, estende-se uma extensa e desnuda planície, repleta de poeira, cascalho e rochas fragmentadas. Nenhuma planta, nenhum animal terrestre, nem mesmo líquenes ou fungos. A vida, ainda incipiente, viceja apenas nas profundezas do mar escuro e tormentoso que entrevemos ao longe.
Escavando o solo empoeirado, afastando uma tênue camada de cascalho, topamos com um leito rochoso de pedra acinzentada que se estende por uma ampla área à nossa volta. Desinteressante que seja, e por incrível que pareça, eis aí o objeto de nossa busca, o personagem principal desta história.
Vocês não devem estar ligando o nome à pessoa. E certamente devem estar muito decepcionados por terem vindo de tão longe para fazerem descoberta de tão pouca monta, debaixo de sol tão inclemente, sobre terreno tão inóspito e rude.
Afortunadamente, para entendermos o que um mero veio de rocha ígnea granítica perdido em meio a um deserto estéril tem a ver com o encantador penedo à beira mar onde iniciamos esta longa viagem, teremos de retornar à cabine refrigerada de nossa máquina do tempo e fazer o caminho inverso, acelerando nossos propulsores temporais à vertiginosa progressão de cem mil anos por segundo.
Nesta velocidade, é impossível observar a grande explosão de vida ocorrida no período seguinte, o Cambriano. À medida que sucessivas gerações de criaturas tomam conta do planeta vemos apenas manchas coloridas varrendo a paisagem, como sombras projetadas por nuvens gordas e esparsas levadas rapidamente pelo vento em um dia de sol.
Outras transformações, entretanto, por serem muito mais lentas, permitem que as acompanhemos em maiores detalhes. Olhando em direção ao mar, por exemplo, percebemos uma fímbria escura no horizonte distante, que se aproxima lentamente até se revelar como sendo outra gigantesca massa continental. Trata-se da Placa Africana, ou aquilo que, algum dia, virá a constituir o continente africano atual.
Observamos, atônitos, a aproximação daquele colosso, até que este colide com a Placa Sul Americana, eliminando o oceano que as separava outrora. Pouco a pouco, a planície onde estamos vai sendo atropelada, esmagada, soterrada pela Placa Africana, que avança inexoravelmente.
No ponto de encontro de ambas as placas, como resultado deste impacto, vemos erguer-se uma grande cordilheira, possivelmente tão alta e extensa quanto os Andes atuais. O veio granítico que desvendamos há pouco encontra-se agora a mais de 15km de profundidade. E passando por notáveis metamorfoses. Enquanto que, na superfície, o mundo é ocupado por vida cada vez mais complexa e exuberante, nas profundezas da Terra, nosso personagem — assim como os demais minerais que formavam a extensa planície — é submetido a extremas condições de temperatura e pressão, transformando-se em magma, mesclando-se a outros minerais, saindo da mera condição de rocha ígnea granítica e criando condições para que, em breve, se transforme em um tipo de matéria muito mais complexa.
Passa o tempo. Muito, muito tempo. A imensa cordilheira formada durante o encontro das placas continentais é gradativamente erodida. Montanhas tão altaneiras quanto o Aconcágua são literalmente dissolvidas pela ação dos elementos. Gigantes nevados com mais de seis mil metros de altura, aparentemente eternos, são reduzidos a poeira pela chuva, pela areia e pelo vento. Em algumas centenas de milhões de anos, toda uma cadeia de montanhas desaparece da face da Terra como se nunca tivesse existido.
Com o gradual desaparecimento da cordilheira, a crosta soterrada pela Placa Africana vai aflorando lentamente. E pela primeira vez em algumas centenas de milhões de anos, nosso veio de rocha ígnea granítica volta à superfície do planeta, só que transformado em algo novo, um tipo de rocha metamórfica que os cientistas denominam de gnaisse facoidal.
O nome pode assustar aqueles que não têm estômago para geologismos, mas é um tipo de pedra bem conhecida dos cariocas uma vez que dela é feita o Pão de Açúcar, o Corcovado e, obviamente, a Ponta do Arpoador — além de poder ser observada em diversas construções do Rio Antigo, inclusive no chafariz das Saracuras, na Praça General Osório, criado por mestre Valentim. A “mais carioca das rochas”, como a definiu o Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ, é uma pedra grosseiramente granulosa, caracterizada por possuir “olhos” elípticos de feldspato — daí o nome facoidal, que vem do grego φακοειδή, ou “lenticular”.
Há cerca de 150 milhões de anos, o supercontinente formado pela união das placas Africana e Sul Americana — que os cientistas contemporâneos apelidaram de Gondwana — começa a se romper. As placas voltam a se afastar uma da outra e, no espaço aberto por essa separação surge o Oceano Atlântico.
Novamente expostas ao sol, todas aquelas rochas que conformavam a imensa planície aonde primeiro chegamos nessa nossa longa viagem ao passado — e que sofreram a ação transformadora das altíssimas condições de temperatura e pressão às quais foram submetidas no interior da Terra — passam a também sofrer a ação erosiva dos elementos.
Inicialmente, formam um imenso corpo tabular, sem grandes depressões ou relevo, algo parecido com o que até hoje podemos ver no topo de granito da Pedra da Gávea. Com o tempo, porém, seus minerais mais macios são lentamente erodidos. Apenas as rochas mais duras resistem. O perfil da atual bacia da Guanabara — e, em uma escala mais ampla, da Serra do Mar e da Mantiqueira — toma forma.
Neste ponto, por mero capricho, desligamos nossos propulsores temporais para que possamos observar detalhes da paisagem.
Estamos, então, bem avançados no tempo, por volta do ano 20 mil a.C., em plena Era do Gelo. Boa parte da água dos oceanos está congelada nos pólos, os continentes têm linhas costeiras muito mais amplas e o Arpoador ainda está longe de ser o que é atualmente. De fato, caso não soubéssemos para onde estamos olhando, seríamos incapazes de reconhecer ali o conjunto de pedras que é objeto deste texto.
Para começo de conversa, não vemos o mar, que se encontra a alguns quilômetros a leste, além da linha do horizonte. Em realidade, mal conseguimos definir os contornos do rochedo, então cercado e parcialmente coberto por uma exuberante floresta subtropical, repleta de pinheiros, sempre vivas e araucárias. Tatus e preguiças gigantes substituem os farofeiros e as ratazanas urbanas que infestam o Arpoador contemporâneo. Aparentemente, o homem ainda não chegou a este lado do continente. A moça de Lagoa Santa ainda está a nove mil anos no futuro.
Voltando a acelerar nossos propulsores, testemunhamos o fim da Era do Gelo e a gradativa aproximação do oceano. Observamos a ação abrasiva das ondas contras as rochas e a formação de uma enseada paradisíaca que, em um futuro não muito longínquo, será batizada de Ipanema e celebrada em música, verso e prosa pelo mundo afora. O areal é tomado por uma densa vegetação de restinga que, junto ao mar, resume-se a plantas rasteiras e herbáceas capazes de resistir à alta salinidade e a força das ressacas mas que, à medida que avança terra adentro, torna-se mais exuberante, com cactos, arbustos, arvoretas, bromélias, trepadeiras e orquídeas. Caranguejos, aranhas, serpentes e anfíbios arrastam-se sobre o solo arenoso. Sabiás, gaviões e aves migratórias disputam os galhos dos arbustos mais altos. Ouvimos o contínuo marulhar das ondas contra as pedras.
O paraíso é ali. E agora.
No melhor da festa, entretanto, sentimos os propulsores desacelerarem automaticamente. Como por encanto maligno, uma ominosa muralha de concreto materializa-se em meio à paisagem. Ouvimos um estalo. O sibilar de uma súbita descompressão. A cabina pára de vibrar. Chegamos aos tempos atuais.

Como sabemos, a ponta do Arpoador — assim como o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Morro dos Cabritos e tantas outras formações rochosas da paisagem carioca — é constituída basicamente de um mineral granuloso chamado gnaisse facoidal, resultado das metamorfoses sofridas por um veio de rocha ígnea granítica nas profundezas da Terra. Contudo, embora em menor proporção, outras rochas também estavam presentes naquele gigantesco caldeirão de magma pressurizado em que foi engendrado o nosso penedo. E são elas as responsáveis pelos caprichosos veios e estrias — tão característicos — que vemos atualmente ao logo de todo o rochedo.
Sujeita à erosão e ao intemperismo, a Ponta do Arpoador vem sofrendo todo tipo de transformação desde que novamente voltou à superfície há cerca de 150 milhões de anos.
Nas pedras do paredão oeste, por exemplo, lado no qual prevalecem os ventos, encontramos grandes cavidades arredondadas, criadas por redemoinhos de sais cristalizados e outras partículas aéreas, que nos dão uma boa amostra de como os gigantes de pedra do planeta Terra — aparentemente eternos — acabam literalmente transformados em poeira pela ação dos elementos. Já nos paredões voltados para o mar, verificamos o desgaste das rochas causado pelo impacto das ondas. O próprio calor do sol exerce efeito sobre aquele conjunto de pedras, criando microfissuras nas rochas e permitindo a infiltração de sais, areia e raízes que pouco a pouco vêm desagregando as suas rochas e alterando suas características morfológicas. E até mesmo a vida animal, passageira que seja, também contribui para a mudança, como é o caso dos curiosos orifícios produzidos por ouriços — criaturas hoje erradicadas pela poluição marinha — que podemos ver em diversos pontos do penedo.
É muito provável que, em um espaço de tempo relativamente curto, a Ponta do Arpoador não mais exista. Muito em breve, seus minerais acabarão transformados, dissolvidos, erodidos e espalhados pela ação dos elementos. E nada mais restará de sua memória.
Certamente não estaremos vivos a essa altura. De nosso ponto de vista, em nossa escala de tempo, aquele elegante rochedo à beira mar continuará a ser o que sempre foi. E sempre permanecerá ali onde está. E continuaremos a mergulhar, passear, pescar, namorar e fazer piqueniques em suas encostas. E continuaremos a admirar dali o pôr do sol, emoldurado pelas imponentes formações rochosas da Gávea, do Dois Irmãos e do Maciço da Tijuca, alheios ao fato de que, do ponto de vista da Geologia, tais gigantes de pedra, aparentemente eternos, são tão recentes e efêmeros quanto gotas de orvalho ao sol da manhã.

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Fontes: Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ, “O Gnaisse Facoidal: a mais Carioca das Rochas”, vol. 31-2 / 2008, p. 9-22; Dicionário Enciclopédico Livre de Geociências, “Ponta do Arpoador” em http://www.dicionario.pro.br 

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