terça-feira, 21 de junho de 2011

Como nascem os gigantes

COLÉGIO ANDREWS, PRAIA DE BOTAFOGO, Rio de Janeiro, 1971. Um ano após a conquista do tricampeonato mundial na Copa do México, o Brasil era, mais do que nunca, o país do futebol. E apenas do futebol. Nas ruas, nos bares, nos recreios escolares, só se falava do escrete canarinho que arrebatara definitivamente a Taça Jules Rimet, de uma vez por todas sublimando o grande trauma do marcanazo de 1950 e "consolidando nossa hegemonia sobre as demais nações do planeta", como alardeava o exagerado locutor de famosa, embora hoje extinta, rádio metropolitana. Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e Gerson eram os grandes heróis de moleques pré-adolescentes como eu, muito carentes de ídolos e ideais naqueles tempos sombrios de ditadura, censura e feroz repressão.
  Contudo, havia entre nós um menino que destoava da imensa maioria e que, embora também vibrasse com a recente apoteose esportiva em campos mexicanos, não tinha a mente voltada exclusivamente para as coisas do futebol. Alto, louro, olhos claros, era alvo de olhares apaixonados de todas as garotas da escola e exercia uma liderança natural sobre os demais colegas de turma. Era ótimo aluno, freqüentemente recebendo a nota máxima nas provas e trabalhos escolares. Aos nossos olhos invejosos era, também, um excêntrico irremediável. Em uma época em que o sonho de consumo de nove entre dez garotos de nossa idade se restringia a uma bola Dente de Leite, um tênis Kichute e um jogo de camisas "oficiais", aquele menino bonito, estudioso e carismático sonhava apenas com o dia em que a direção do colégio, cedendo aos seus insistentes apelos, estenderia uma rede de vôlei em nossa quadra poliesportiva — que, entretanto, só servia para a prática de desajeitadas peladas de futebol de salão.
  Enquanto esperava a rede e a bola, que nunca vinham,  virava-se como possível. Não tem rede? Tudo bem. "Arrastamos a trave de futebol até o centro da quadra e usamos o travessão como linha divisória entre os dois campos de jogo, entendeu pessoal?"  A princípio, ninguém entendia coisa nenhuma. "Hein?... E a bola?" queixava-se um colega de pouca fé. "A bola?" respondia ele,
brilho obstinado nos olhos. " Ora, a bola a gente inventa," E punha-se a recolher copos de papel pelo pátio da escola. "Pirou de vez", comentava outro incréu. "Já começou a catar lixo, olha só!" 

De repente, porém, lá vinha ele de novo e, agora, com a bola pronta, que improvisara introduzindo um copo dentro do outro, dentro do outro, dentro do outro, e envolvendo todo o conjunto com um resto de fita adesiva que conseguira no almoxarifado da escola. E o jogo começava. Milagrosamente.
  A maioria daqueles moleques nunca vira um jogo de vôlei na vida, mas o colega era um obstinado e, pacientemente, explicava a todos os fundamentos do novo esporte. Saque. Defesa. Levantamento. Ataque. Bloqueio... Aprendiam os que estavam em campo; e aqueles que se reuniam para assistir as partidas. Sem perceber, fomos pouco a pouco apresentados ao novo esporte, e aprendemos a reconhecer sua graça e beleza. 

  Naquele remoto 1971, eu ainda não era o hippie de boutique em que começaria a me transformar já no ano seguinte, mas não era um sujeito muito "esportivo" e jamais participara de uma daquelas partida de vôlei com trave de futebol de salão e bola feita com copos de papel. Ainda assim, gostava de assisti-las à distância e acompanhar a "evolução técnica" —  por assim dizer — daqueles jovens e improvisados atletas. Principalmente, impressionava-me a obstinação de seu líder. E embora ainda o achasse um excêntrico incurável, algo dentro de mim já dizia que aquele garoto era um vencedor nato e, certamente, estava fadado a grandes destinos.
  O que eu jamais poderia imaginar era que estava assistindo, ali, naquele momento, ao nascimento de um gigante do esporte nacional. Alguém que faria pelo vôlei brasileiro  mais do que Charles Müller fizera pelo futebol. 

  O que nunca poderia passar pela minha cabeça era que, naquela singela quadra de recreio escolar, testemunhava à gênese da Geração de Ouro do volêi brasileiro e assistia ao marco zero da carreira esportiva de um nome que trouxe mais títulos internacionais para o Brasil do que Pelé, Ronaldo e Romário juntos em um mesmo saco de medalhas.
  O resto da história todo mundo conhece. Tornou-se História com H maíusculo, gravada a ouro prata e bronze na memória esportiva nacional. 
  Por isso, nos dias de hoje, toda vez que vejo meu bom colega de escola, Bernardo Rocha Rezende, esbravejando com seus jogadores em quadra, exigindo-lhes as tripas em troca da vitória, não consigo deixar de sentir um tremendo orgulho por, inadvertidamente, ter sido testemunha do começo de tudo aquilo: uma trave de futebol de salão no meio de uma quadra de escola, uma bola feita de copos de papel... e um sujeito exemplar, determinado a transformar em realidade sonhos aparentemente impossíveis. 

4 comentários:

Julio Zartos disse...

Caramba Alexandre, que privilégio!!!

Aí está, concordo plenamente. Sempre tive no Bernardinho, um exemplo vivo do que se deve esperar de um líder e vencedor. Acrescento que ultimamente, andei tendo uns delírios galopantes, imaginando o que seria te-lo como técnico da seleção de futebol!!!

ana maria santeiro disse...

incrível esta história. fica explicado a obstinação dele. E o talento, claro!

Claudia Nuno disse...

Muito bom, Alexandre!
Bjs
Claudia Nuno

Anônimo disse...

Bela história, principalmente escrita por você.

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