quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Forum


Equipe da revista ELE ELA, 1985

Há muitos e muitos anos, em uma galáxia muito longe daqui, em uma época em que ainda não havia celular, Internet, sites pornográficos e encontros virtuais, um tempo de trevas e ignorância, sem BBB, sem Facebook, sem Twitter, sem nem mesmo um modesto ICQ, havia uma seção em uma extinta revista erótica sediada no Rio de Janeiro que mobilizava as atenções, corações, mentes e fantasias sexuais de legiões brasileiros, o Fórum. Visto com olhos contemporâneos, tratava-se de uma bobagem: a mera transcrição de cartas enviadas pelos leitores — datilografadas ou escritas a mão! —  narrando suas aventuras e fantasias sexuais. Naquele tempo porém, com o país recém-saído de duas longas décadas de ditadura, censura e feroz repressão às liberdades individuais, a seção tinha um enorme apelo.
Quando ainda em meu segundo ano de faculdade, mas já como redator contratado da revista, fui encarregado de administrar a seção, cargo que exerci por mais de um ano, até chegar outro calouro desavisado para ocupar o meu lugar. O texto abaixo reúne algumas lembranças desses tempos gloriosos em que o sexo era sem culpa, ninguém transava com camisinha, e a DST mais braba era curada com uma simples injeção de Benzetacil.

Em certa sexta-feira após o expediente, a pretexto de comemorar o aniversário de um colega, a redação se reuniu em um famoso bar da Glória para tomar o inevitável suco de laranja das 20h. É claro que o papo não podia girar a respeito de outra coisa a não ser a revista e, por extensão, mulher. Lá pelas tantas, já empolgados por uns três ou quatro refrescos, ouvimos uma voz feminina vinda do fundo do bar: “Aí, marmanjos! Vocês é que são os tais da grutinha?” Silêncio sepulcral. Todos os olhares convergiram na direção de onde vinha a voz e encontraram não uma, mas um grupo de quatro mulheres muito bem apanhadas, numa congregação que mais lembrava um comitê popular do movimento feminista. E, a julgar pelos olhares que nos lançavam, evidentemente eram membros da ala radical.
Meio sem graça, alguém respondeu com a voz trêmula:
“E, mais ou menos, né...”
A pergunta veio direta, na bucha:
“Vem cá, esse Forum de vocês é verdade ou mentira?”
Não pudemos deixar de rir. Sempre a mesma pergunta! E claro que daí para frente as mesas se juntaram, as dúvidas foram esclarecidas e pelo menos dois redatores da revista tiveram pretextos de sobra para escrever um Forum na manhã seguinte. Mas não o fizeram. Não era preciso. Nunca foi preciso.
Outro dia, conduzido pelo RP da empresa, um grupo de publicitários de diversas agências visitou a redação. Bastante inibido, um deles se adiantou ao grupo e explicou:
“Nós viemos aqui para...”
Não foi preciso terminar. Macaco velho, o chefe de redação emendou:
“Para saber se o Forum é verdade ou mentira, né?” E, sem esperar a resposta, pousou sobre a mesa um caixote de madeira contendo aproximadamente 900 cartas de experiências íntimas dos leitores. “São as do mês...”, completou falsamente modesto.
E claro que, apesar dos insistentes apelos, não deixamos que vasculhassem a caixa. Afinal, entre outras virtudes, sempre nos gabamos do sigilo escrupuloso que oferecíamos aos nossos leitores. Mas até hoje fico a imaginar as loucuras que aquela junta publicitária não faria caso colocasse as mãos no material. Pois não havia gente que chamava o Forum de “termômetro informal da sexualidade brasileira”?
De uma vez por todas e daqui para a frente: o Forum era verdadeiro e todas as cartas publicadas eram escritas por leitores ávidos por verem publicada a sua peça erótica em nossas páginas amarelas. As centenas de cartas que chegavam por mês eram  lidas por uma equipe de redatores e selecionadas a partir de critérios como qualidade do texto, erotismo e originalidade. Uma vez escolhidas as titulares, as cartas iam  para o estaleiro onde — respeitando-se ao máximo o texto original — eram corrigidos erros de ortografia eventuais e substituídos os termos chulos por correspondentes publicáveis. Mas, igualmente de uma vez por todas, não fomos nós que inventamos esse papo de “grutinha do amor”.
Foi em novembro de 1973, na edição n. 55, que pela primeira vez se viu uma seção com o nome Forum. Entretanto, naqueles tempos bicudos, o Forum era completamente diferente da pícara seção que se tonou posteriormente e se apresentava assim: “Esta é a sua opinião. Escreva para a redação”. Ou seja, cumpria a função de uma seção de cartas e crítica dos leitores. Mas mudou devagarzinho.
Em meados da década de 70, o Forum já publicava cartas (ousadíssimas para a época) com ofertas de trocas de casais, e, por volta de março de 1977, abordava temas como sexo grupal, insatisfação, frigidez e esterilidade, fazendo as vezes de consultório sexual. Mas foi apenas na edição n. 98, de junho de 1977, que o Forum publicou pela primeira vez alguma coisa parecida com uma experiência (ou fantasia) de um leitor. A carta se chamava Um Sabor Muito Feminino Para o Seu Chiclete e dizia: “...Admito francamente minha preferência pelo chamado sexo oral — mais precisamente, o delicioso cunnilingus. Só tenho outro xodó na vida: mascar chiclete. E a novidade, que certamente interessará aos leitores, é que consegui conciliar minhas duas paixões. Toda manhã, antes de sair para o trabalho, coloco um tablete desse chiclete tipo americano dentro das chamadas partes íntimas da minha mulher, enquanto ela faz a sua ginástica matinal. Quando ela termina, retiro o chiclete, refaço a embalagem e vou para o escritório. Passo umas três horas feito louco, antecipando aquele gostinho divino na minha boca, mas agüento firme até quase a hora do almoço, quando tiro do bolso o meu chiclete (que eu apelidei de chiclêta) e começo a mascar... Ah! Vocês não imaginam!”
Gradativamente, entremeadas por cartas curiosas (mas ainda do tipo “doutor, o que eu faço com o meu pinto?’’), as experiências dos leitores foram ganhando espaço na seção. No número 107 apareceu, enfim, o primeiro relato (com começo, meio e fim) de uma relação sexual, intitulado Amor em Mar de Espanha, onde a leitora inaugurou um dos maiores chavões da seção, o termo cavalgar: “... sentindo-o intensamente vivo sob mim, cavalguei-o, a princípio em trote lento, passando em seguida à marcha rápida, para chegar, com imenso prazer, ao galope largo, desatinado.”
Um dos principais argumentos de quem afirma que o Forum não era verídico — ou seja, que suas histórias era forjadas na própria redação da revista — é o que costumam chamar de “linguagem pasteurizada”. Entre muitas cartas de leitores indignados com “a desfaçatez com que são impostas essas ‘cartas de leitor’; evidentemente criadas por imaginativos escritores”, a maior parte argumenta que “obviamente são escritas pela mesma pessoa, uma vez que se valem dos mesmos artifícios semânticos”. Ou seja, o que o indignado leitor queria dizer ao certo é que o Forum não era autêntico porque usava sempre os mesmos termos, como se fossem recursos estilísticos de um único autor. Ledo engano, para responder no mesmo estilo.
A verdade é que, uma vez que a seção se ampliou e se tornou a única desse tipo na grande imprensa brasileira, o Forum criou, por si mesmo, uma linguagem própria, democrática, pública, um estilo geral, gradualmente aperfeiçoado por seus muitos leitores-colaboradores.
Na edição n. 114, a seção Forum finalmente chegou à maturidade, ostentando em sua epígrafe os dizeres: “Esta seção destina-se à publicação de cartas dos leitores sobre suas experiências sexuais e fantasias eróticas.” A essa altura, o Forum já era assunto de salão, mesa e alcova, e mais de uma faculdade de comunicação e psicologia já premiara teses baseadas em seus relatos.
De fato, era uma experiência curiosa manusear tais cartas. Confirmando sua inteira confiança em nossa discrição, os leitores não só enviavam nome e endereço completos, como também cópias xerografadas de suas carteiras de identidade, embora isso fosse absolutamente desnecessário. Já os relatos eram entregas totais, e acreditamos que muitos de nossos correspondente não fossem tão sinceros nem mesmo com o amigo (ou amiga) mais íntimo.
Muitas das cartas recebidas continham algum recado implícito para alguém. E isso ficava evidente quando, uma vez recusada, a mesma carta insistia em chegar, mês a mês, até a nossa capitulação (ou a desistência do leitor). Forum também serviu para aproximar tendências afins (a fim de tudo) e mais de uma vez leitores, encantados com algum relato, escreviam pedindo o endereço deste ou daquele autor anônimo. Nossa atitude foi sempre a mesma: publicávamos a carta, tal qual era enviada, em nossa seção Cartas, na base do “se colar, colou”. O resultado disso foi que as cartas de Forum duplicaram em volume, pois, não bastando o relato original, nossos leitores não se privavam do prazer de contar as experiências sexuais resultantes de encontros travados por nosso intermédio. E Forum partiu para a metalinguagem — o que não tem nada a ver com sexo oral.
A partir da linguagem, podemos traçar toda a trajetória de Forum através dos tempos. A princípio, os relatos apenas sugeriam o ato sexual, fixando-se mais na situação ou na descrição de ambiente e personagens. Termos como “partes pudendas” eram comuns nessa época. Gradativamente, no entanto, a linguagem foi se sofisticando, tornando-se mais ousada e começando a procurar soluções mais originais. E chegou a época das “inhas”. Tudo era “inha”: era grutinha, xoxotinha, bundinha... os leitores caprichavam nos diminutivos, certamente procurando amenizar a crueza de seus relatos. Por isso, muita gente começou a achar que o Forum era escrito pela mesma pessoa.
É bom lembrar que escrever a respeito de experiências íntimas é tarefa complicada. Descrever sensações, tatos, cheiros... enfim, narrar o sexo de forma literária é um desafio instigante. Por isso, toda vez que algum leitor conseguia uma fórmula nova, imediatamente esta fórmula era adotada pelos outros correspondentes. Daí a "linguagem pasteurizada" de que se queixavam nossos críticos incrédulos.
Em certa época, fomos bombardeados por dezenas de cartas escritas pela mesma mulher, narrando as suas aventuras na África, e que invariavelmente citavam as dimensões avantajadas dos membros dos homens daquele continente. Publicamos uma, duas, três cartas mas a empolgada leitora parecia ter um repertório inesgotável de trepadas africanas. Black is beautiful, sim, mas chegou um momento em que começou a encher o saco. Após a sétima carta publicada e a duodécima recebida, encerramos o safári. Continuou mandando suas aventuras africanas e tornou-se      colaboradora exclusiva; mas nunca mais foi publicada. Mesmo porque, lá pela décima aventura ela começou a se repetir, misturando aventuras já narradas com um ou outro elemento original, mas que não justificava a reprise.
Aliás, falando de missivas femininas, convém dizer que a grande maioria delas continham relatos muito parecidos, ao menos em um ponto: seja como e onde for, seja quando for, é inevitável a presença do corno. E começamos a perceber que o adultério é um dos elementos mais freqüentes das fantasias femininas.
Já os homens primavam pela ingenuidade e muitos deles pecavam pelo que convencionamos chamar de sexo estatístico. Enquanto as mulheres procuravam puxar para o lado do romance, do drama psicológico, os marmanjos insistiam em falar de pesos e medidas. Por exemplo: em vez de dizer que a noite foi ótima e que transou com uma mulher maravilhosa, eles diziam:  “Tenho um pênis de 25cm e dei três sem tirar de dentro logo na primeira transa.”
Ao longo desses anos recebemos de tudo. Desde pêlos pubianos caprichosamente aparados e enviados junto com as cartas (“para provar que não estou mentindo”), até relatos eróticos que se poderiam chamar de ótima literatura. E, quando não insistiam em falar no tamanho descomunal de seu membros, nossos leitores conseguiam criar peças cheias de humor e picardia, como a premiada Adão, o Bananeiro, uma das cartas mais sacanas e engraçadas que recebemos.
Ao longo dos tempos, Forum serviu como tribuna livre de nossos leitores, único espaço para a publicação de suas fantasias sexuais. Serviu também como intermediário para aventuras e afrodisíaco para casais entediados. Na pior das hipóteses, Forum serviu, ao menos, para iniciar ótimas cantadas.
Como disse, todas as cartas publicadas eram verdadeiras, escritas pelos leitores, e nunca precisamos inventar nada. Nunca precisamos, o que não impediu que, uma vez na vida e outra na morte, alguns de nós se sentassem à máquina para contar (por mero capricho) algumas de suas aventuras. Era justo, era honesto. Afinal, também somos humanos e alimentamos nossas próprias fantasias...

4 comentários:

Julio Zartos disse...

Ok, se você diz, eu acredito. Agora, fico aqui a pensar com meus botões, o que não faria o Giácomo numa redação dessas...

Alexandre Raposo disse...

Julio amigo, acho que o Giacomo se aborreceria horrores. Lembra do que ele achava sobre o sexo? Penso que ele iria preferir a seção de entrevistas e matérias sobre comportamento...

Glauco disse...

Tive acesso, quando criança, as edições que meu tios escondiam em seus armários, debaixo de travesseiros, da cama. Talvez seja por isso que nunca curti a Xuxa. Mas gostava de ler as cartas do suplemento, me atraiam sobremaneira.Pergunta que não quer calar: vocês chegaram a conhecer as personalidades que posavam pra revista?

Armando Caruzo Plaster disse...

Sempre quis saber se essas Histórias do Forum erma mesmo reais.... Hj em dia, as Mulheres que posam nuas é que não são nada reais.. ;-)

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