quinta-feira, 22 de março de 2012

Papo com Mário Quintana (1988)


“Era uma vez, em um conto de fadas, uma pastorinha tão pequenina que, em vez de cuidar das ovelhas, as ovelhas é que cuidavam dela.” (Mário Quintana, Porta giratória, Editora Globo, 1988.) 

Há em Porto Alegre um poeta tão amado e tão velhinho, que, em vez de cuidar da cidade, a cidade é quem cuida dele. Chama-se Mário Quintana e acaba de completar 82 anos.
Hoje, Quintana não mais caminha pela Rua da Praia, não é mais visto em seus antológicos passeios pela Praça da Alfândega e não mais freqüenta a redação do Correio do Povo, como era seu costume. Também já foi a época em que parava para assistir filmes de terror no Cinema Cacique ou inspecionar as prateleiras da Livraria Globo para ver os lançamentos literários. Desde que foi atropelado e fraturou o colo do fêmur em 1985, o poeta não é mais visto ao ar livre com a antiga freqüência. As ruas, bares e rodas intelectuais de Porto Alegre se ressentem dessa ausência e lembram, nostálgicas, do tempo em que o poeta era personagem corriqueiro do vaivém da cidade. Mas nem por isso abriram mão desse convívio: em seu apartamento, no Hotel Residence (onde habita a convite do proprietário, o ex-craque Falcão), Mário Quintana mal encontra tempo para receber tantas visitas, telefonemas, pedidos de entrevista e farta correspondência.
“O Mário é tão nosso quanto o pôr-do-sol no Guaíba ou uma cuia de chimarrão”, opina o motorista de táxi ao ouvir a conversa da reportagem. Verdade é que não foi preciso dar-lhe o nome da rua e nem o do hotel para onde íamos: bastou pedir-lhe que nos levasse ao Poeta. Porque, nesta cidade, na cabeça do povo, poeta, poeta mesmo, de verdade, há só um. Quintana conquistou entre a sua gente a honra e a responsabilidade de ser uma espécie de administrador de sonhos, encarregado de criar a poesia do cotidiano da metrópole.
Quintana gosta de dizer que foi criado em um ambiente propício à poesia, “onde não se considerava o poeta um maluco ou uma ovelha negra”. Nascido na remota Alegrete, quase na fronteira com a Argentina, em 30 de julho de 1906, ele sempre esteve em contato com a literatura. O pai recitava-lhe Camões e La Fontaine (no original), à cabeceira da cama, enquanto, lá fora, o cometa de Halley fazia a sua passagem, “belo como um cavalo”, como escreveu mais tarde.
Em 1926, começou a fazer traduções para a Livraria Globo e verteu para o português obras importantes da literaturas inglesa e francesa: entre os autores traduzidos, nomes como Joseph Conrad, Lin Yutang, Guy de Maupassant, Proust, Virginia Woolf, Simenon, Graham Greene, Aldous Huxley, Voltaire...
A estréia como autor se deu nesse mesmo ano, quando venceu um concurso de contos. Entretanto, em meio à grande festa do Modernismo, Quintana preferiu o caminho lírico da poesia tradicional e, para horror de seus contemporâneos, escrevia sonetos. E foi com sonetos que publicou o primeiro livro, Rua dos Cata-ventos. De lá pra cá, seguiu-se uma obra portentosa, materializada em poemas cheios de lirismo e mordacidade, que sempre privilegiaram a poesia do dia-a-dia e as coisas mais simples da vida:
“Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?”
“Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança...”
Notoriamente avesso a entrevistas e a que devassem a sua intimidade, o poeta surpreende ao convidar o repórter para conhecer o seu quarto de dormir: “Desde que não venha com essas coisas de gravar.”
Na parede, sobre a cama, cartazes de Bruna Lombardi, a musa inspiradora e inspirada, Cecília Meireles, em seus tempos de beleza hollywoodiana, e Greta Garbo. Velhas paixões? “Velhas e novas”, responde. De volta à sala, Quintana aponta para as duas jovens secretárias e diz: “Depois do acidente, elas são as minhas novas pernas. Bonitas as minhas pernas, não é verdade?”

O senhor sempre afirmou que detestava entrevistas porque, ao concedê-las, se sentia como em um interrogatório policial. Por isso, antes de mais nada, gostaria de lhe dizer que não pretendo interrogá-lo como um policial e nem tampouco bisbilhotar a sua intimidade...

Não vai me interrogar? Mas eu não sei falar! Eu não sou discursivo, sou muito calado. As pessoas têm de tirar as coisas de mim com saca-rolhas. O poeta é para dentro, os outros é que vivem para fora.

Sendo assim, que tal uma visão de como o poeta encara o mundo de hoje com a perspectiva de seus 82 anos de idade e poesia?

Tirando algumas coisas, o mundo é sempre o mesmo. A gente carrega o mundo dentro da gente, o mundo particular, individual, que não muda. O que muda são as circunstâncias exteriores. Mas a gente não muda, nem mesmo com o passar da idade. Eu me sinto apenas na oitava edição de mim mesmo; é o mesmo livro. Eu não vejo diferença alguma. Hoje é mais difícil viver do que no tempo de minha mocidade, justamente por causa dessas circunstâncias exteriores. Naquele tempo quase não havia circunstâncias exteriores! (Gargalhadas.) Era mais fácil viver, barbaridade! Agora é mais fácil morrer, não é mesmo? Mas tenho razões para acreditar na sobrevivência. Creio que evoluímos. Não acreditar na sobrevivência é como um cozinheiro que começasse a fazer uma bela macarronada às seis horas da manhã e, ao meio-dia, atirasse tudo pela janela. Creio que há esperança de continuarmos a evoluir. Se não a alma, ao menos a espécie.

E a que atribui a dificuldade de existir no mundo de hoje?

Ao excesso de população. À miséria. Hoje, como é que um camarada pobre vai arranjar dinheiro? Ou tirando a quina — o que não é muito fácil, há anos eu não tiro nem um terno —, ou assaltando um banco — eu não tenho coragem para isso —, ou fazendo um casamento rico — mas agora é tarde. São as únicas maneiras de um camarada ficar rico hoje em dia.

O senhor sempre gostou de jogos de azar: loto, jogo do bicho etc. Realmente deseja enriquecer?

Eu já disse num poema que o dinheiro traz comodidade, mas não traz felicidade. Eu nunca quis ser rico, apenas quis ter onde morar, o que comer, beber e me vestir. Para que dinheiro para incomodar?

Mas joga na loto. O que faria se acertasse a quina?

Antes de tudo não contaria para ninguém! (Risos.) Depois, daria uma quantia para instituições de caridade que tivessem a sua seriedade comprovada, metade para meus herdeiros naturais e o resto... Para que eu ia guardar todo esse dinheiro?

Quem sabe se doasse para a Casa de Cultura Mário Quintana?

A Casa de Cultura? É, é muito bom aquilo, fazem muita coisa. Mas eu nunca vou lá! (Risos.) Sou um comodista.

 Então o título do livro A Preguiça como Método de Trabalho não era uma licença poética?

Não, não sou preguiçoso. Afinal de contas, um poeta trabalha 24 horas por dia. Mesmo que ele não esteja fazendo nada, está acumulando histórias. O que não tem é hora fixa de trabalho. Aliás, é muito bom fazer poemas. Acho que todo mundo devia escrever poesia. Todo poema é uma tentativa de auto-superação, faz bem para a alma. Pode até não dar certo, mas não tem importância. Sem dúvida, vale a pena fazer poema... desde que não venham me mostrar depois! (Risos.)

É tão desagradável assim ler poemas alheios?

Quando descubro um bom poeta fico tão contente que é como se eu mesmo tivesse feito o poema. Mas a maioria... Entretanto, é necessária a maioria. E preciso haver muitas chiquinhas-gonçalves e não-sei-quem-da-silva para surgir uma Cecília Meirelles. E necessária toda aquela efervescência para brotar a flor.

E quais novas flores têm nascido no canteiro da poesia nacional?

O que eu vejo de bom no Brasil atualmente é que o pessoal não está mais se alistando em escolas. Cada um segue a sua própria linha. Se alistar numa escola poética é o mesmo que embarcar num navio. Quando o navio naufraga — quer dizer, quando a escola passa de moda — todo o povo pula. Agora vai cada um no seu barquinho; quanto a chegar à outra margem, isso vai depender do esforço de cada um. Mas eu só conheço bons poetas que já estão velhos. O mais novo, o Walmir Ayala, também já está velho, tem cerca de 50 anos. Tem também aquele... como é o nome daquele que me chamou de “animal da palavra”? Como é? Ah, o Ney Duclós. O poema é bom. Diz: não sei o quê... “brontossauro da cidade de vidro... borboleta amarela na floresta queimada! Desconfie da sua fala mansa. Ele é o flagelo de Deus e vocês não sabem...” O rapaz é muito bom. O poema está no seu livro Outubro.

E depois de Porta Giratória, o que vem?

Meu próximo livro reunirá 120 poemas selecionados entre 210, porque sou muito exigente comigo mesmo. Irá se chama A Cor do Invisível. Estes poemas são de várias épocas. Tem um de 1925, quando eu tinha apenas 19 anos.

Este título tem algum significado oculto?

Eu acho que o título é bastante claro e diz respeito ao mundo intelectual que o poeta exprime por meio de imagens. Um livro de poemas é um livro de figuras. Um pensador, um filósofo, pensa por meio de associação de idéias. Já o poeta pensa por meio de associação de imagens, ou seja: dá colorido ao mundo da invisibilidade. Não sei se expliquei direito. Mas, para que explicar nomes? Mal comparando, é o mesmo que perguntar a Deus o que ele quis dizer com a Criação. Eu, por exemplo, troco muito os nomes e passo muita vergonha. Às vezes encontro um velho amigo e digo: “Artur, como vai?” E ele me responde: “Mas eu não me chamo Artur!” E eu fico com aquela cara. Mas agora descobri uma maneira muito boa para evitar essa situação: se encontro um amigo dos tempos de colégio e digo: “Oh, Alfredo, como vai?”, e ele me diz que não se chama Alfredo, eu então lhe pergunto: “Por quê?” Aí é ele quem fica com cara de tacho! Nesta questão de nomes, entretanto, perdi uma vez para uma senhora, dessas que perguntam o que a gente quis dizer com um poema. Queixou-se de que o poema era nebuloso e eu lhe respondi: “E o que quer dizer uma nuvem?” E ela: “Depende: às vezes quer dizer chuva, às vezes, bom tempo.” Tenho de confessar que essa eu perdi. (Risos.)

E o seu affair literário com a Bruna Lombardi, a quantas anda?

A Bruna é um elixir para mim. Ultimamente ela não me tem escrito; anda muito vagabunda. Eu também não escrevo. Mas somos bons amigos. Quando eu a conheci, ela tinha 24 anos. Recentemente, em primeiro de agosto, ela fez 36. Digo isso assim porque ela é uma criatura tão extraordinária que não se importa que a gente diga a idade dela. Gostei muito de seu último livro de poesias, O Perigo do Dragão. É um livro em que se revela a mulher inteira, sem preconceitos. É um livro corajoso. Também li o seu Diário do Grande Sertão.
          
E que tal achou o desempenho de sua musa na minissérie da tevê?

Ao que parece, Diadorim é um papel difícil.  Mas a verdade é que não cheguei a conhecer Guimarães Rosa e não consegui lê-lo. Aquele estilo dele de inventar palavras... eu tinha impressão de que subia uma ladeira de cascalho. Por que não falam de Euclides da Cunha? O pessoal se baba todo na frente do Guimarães Rosa e ignora o Euclides da Cunha porque acha difícil. Esse pessoal moço acha difícil o Euclides da Cunha, mas aquela orquestração dos períodos dele parecia uma sinfonia! Um ritmo amplo... aquilo chega a ser poesia épica, transcende a prosa.

Sabe-se que, apesar de haver traduzido grandes obras da literatura inglesa, o senhor nunca soube falar inglês. Como vão as suas aulas de conversação?

Para traduzir, aprendi inglês por mim mesmo, sozinho: eu, uma gramática e um dicionário. No fim, sabia ler inglês, mas lia como estava escrito. Afinal de contas, fui ó primeiro a traduzir Virginia Woolf para o português, uma tradução muito elogiada. Mas ainda não comecei as minhas aulas de conversação por causa da surdez. Faz uma semana que inaugurei este novo aparelho. Antes, entendia tudo trocado e se começasse as aulas eu aprenderia errado. Agora posso ouvir o meu curso de inglês em discos. Inglês da Inglaterra, bem entendido. O bom inglês é aquele falado pelos mordomos dos filmes de suspense. (Risos.) Engraçado, né? O pessoal acha graça nessa história de aprender inglês aos 82 anos. Mas a gente precisa fazer projetos em longo prazo para desafiar o diabo.

E o senhor não sente saudade de seus tempos de boêmia, seus bares de fé, amigos de copo? Como eram as suas farras adolescentes?

(Gargalhadas.) Naquele tempo não havia farra. Bebida era chope e cachaça; agora é que inventaram essas ervas. Meu companheiro de bar era o Augusto Meyer, grande poeta. Já o Veríssimo não bebia, não fumava, era um santo! Nos reuníamos no Chalé da Praça Quinze. O Augusto e eu preferíamos os bares Hubertus e Lilliput, um bar pequenininho cujos donos gostavam muito de literatura e fiavam para os poetas — imagine que coisa horrível! Naquela época a gente também tinha artistas prediletos. A nossa querida era a Greta Garbo, para quem escrevi duas poesias. Uma dessas foi tão resumida que acabou em dois versos. Não chega nem a um haikai, que tem três. Agora, a pedidos, vou publicar no próximo livro o texto integral, os 18 versos do poema.

E como o poeta encara o advento da AIDS, a mudança dos costumes em função da nova epidemia?

Sempre há uma peste, uma doença para flagelar a humanidade. Deve ser um dos remotos desígnios de Deus! (Gargalhada.) Mas é melhor deixar Deus em paz. Não sou religioso, mas acredito na segunda pessoa da Santíssima Trindade: Jesus. Isso porque há testemunhos históricos de que ele viveu entre nós. Agora, quanto ao Espírito Santo, creio que ninguém saiba o que é.

Falando de política, alguma coisa de novo sob o sol?

Antes, as manifestações populares eram dissolvidas pelas brigadas. Hoje, a oposição faz comício nas escadas da Prefeitura, fala-se. Ameaça de golpe? Sempre houve ameaça de golpe. Sempre existirão marechais deodoros. Mas a coisa está bem melhor.

Sei que o senhor não gosta de falar sobre a Academia, mas...

Eu não gosto de falar da Academia porque pode parecer a fábula das uvas verdes. O que aconteceu de fato nos episódios de minhas candidaturas é que o pessoal aqui do Sul achou que deveria haver outro gaúcho na Academia além do Viana Moog. Fui indicado. O que podia fazer? Dizer que não? A verdade é que fiquei encantado quando não fui eleito. Mas não pretendo falar sobre a Academia. Nem mesmo dizer que não pretendo falar.

As crianças e a infância estão sempre presentes em sua poesia e...

Certa vez, quando ainda morava no Hotel Majestic, eu estava na porta de um bar e uma guriazinha de seus 17 anos atravessou a rua, veio em minha direção e disse: “Eu vim aqui só para lhe dar um oizinho’.” Eu fiquei encantado com o “oizinho”. Antigamente as crianças não se animavam a falar com os adultos. Agora é o contrário. Os adultos é que têm que se calar.

Poeta...
Vai me perguntar mais alguma coisa? É que eu estou tão cansado...

Entrevista publicada em Ele Ela, setembro de 1988 

Um comentário:

Julio Zartos disse...

Caro amigo Alexandre,

Curti muito a entrevista, mas o teu texto falando sobre o poeta é a cereja do sundae.

Vai escrever bem assim, lá em Miguel Pereira!

Abraços,

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