quinta-feira, 22 de março de 2012

Papo com Mário Quintana (1988)


“Era uma vez, em um conto de fadas, uma pastorinha tão pequenina que, em vez de cuidar das ovelhas, as ovelhas é que cuidavam dela.” (Mário Quintana, Porta giratória, Editora Globo, 1988.) 

Há em Porto Alegre um poeta tão amado e tão velhinho, que, em vez de cuidar da cidade, a cidade é quem cuida dele. Chama-se Mário Quintana e acaba de completar 82 anos.
Hoje, Quintana não mais caminha pela Rua da Praia, não é mais visto em seus antológicos passeios pela Praça da Alfândega e não mais freqüenta a redação do Correio do Povo, como era seu costume. Também já foi a época em que parava para assistir filmes de terror no Cinema Cacique ou inspecionar as prateleiras da Livraria Globo para ver os lançamentos literários. Desde que foi atropelado e fraturou o colo do fêmur em 1985, o poeta não é mais visto ao ar livre com a antiga freqüência. As ruas, bares e rodas intelectuais de Porto Alegre se ressentem dessa ausência e lembram, nostálgicas, do tempo em que o poeta era personagem corriqueiro do vaivém da cidade. Mas nem por isso abriram mão desse convívio: em seu apartamento, no Hotel Residence (onde habita a convite do proprietário, o ex-craque Falcão), Mário Quintana mal encontra tempo para receber tantas visitas, telefonemas, pedidos de entrevista e farta correspondência.
“O Mário é tão nosso quanto o pôr-do-sol no Guaíba ou uma cuia de chimarrão”, opina o motorista de táxi ao ouvir a conversa da reportagem. Verdade é que não foi preciso dar-lhe o nome da rua e nem o do hotel para onde íamos: bastou pedir-lhe que nos levasse ao Poeta. Porque, nesta cidade, na cabeça do povo, poeta, poeta mesmo, de verdade, há só um. Quintana conquistou entre a sua gente a honra e a responsabilidade de ser uma espécie de administrador de sonhos, encarregado de criar a poesia do cotidiano da metrópole.
Quintana gosta de dizer que foi criado em um ambiente propício à poesia, “onde não se considerava o poeta um maluco ou uma ovelha negra”. Nascido na remota Alegrete, quase na fronteira com a Argentina, em 30 de julho de 1906, ele sempre esteve em contato com a literatura. O pai recitava-lhe Camões e La Fontaine (no original), à cabeceira da cama, enquanto, lá fora, o cometa de Halley fazia a sua passagem, “belo como um cavalo”, como escreveu mais tarde.
Em 1926, começou a fazer traduções para a Livraria Globo e verteu para o português obras importantes da literaturas inglesa e francesa: entre os autores traduzidos, nomes como Joseph Conrad, Lin Yutang, Guy de Maupassant, Proust, Virginia Woolf, Simenon, Graham Greene, Aldous Huxley, Voltaire...
A estréia como autor se deu nesse mesmo ano, quando venceu um concurso de contos. Entretanto, em meio à grande festa do Modernismo, Quintana preferiu o caminho lírico da poesia tradicional e, para horror de seus contemporâneos, escrevia sonetos. E foi com sonetos que publicou o primeiro livro, Rua dos Cata-ventos. De lá pra cá, seguiu-se uma obra portentosa, materializada em poemas cheios de lirismo e mordacidade, que sempre privilegiaram a poesia do dia-a-dia e as coisas mais simples da vida:
“Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?”
“Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança...”
Notoriamente avesso a entrevistas e a que devassem a sua intimidade, o poeta surpreende ao convidar o repórter para conhecer o seu quarto de dormir: “Desde que não venha com essas coisas de gravar.”
Na parede, sobre a cama, cartazes de Bruna Lombardi, a musa inspiradora e inspirada, Cecília Meireles, em seus tempos de beleza hollywoodiana, e Greta Garbo. Velhas paixões? “Velhas e novas”, responde. De volta à sala, Quintana aponta para as duas jovens secretárias e diz: “Depois do acidente, elas são as minhas novas pernas. Bonitas as minhas pernas, não é verdade?”

O senhor sempre afirmou que detestava entrevistas porque, ao concedê-las, se sentia como em um interrogatório policial. Por isso, antes de mais nada, gostaria de lhe dizer que não pretendo interrogá-lo como um policial e nem tampouco bisbilhotar a sua intimidade...

Não vai me interrogar? Mas eu não sei falar! Eu não sou discursivo, sou muito calado. As pessoas têm de tirar as coisas de mim com saca-rolhas. O poeta é para dentro, os outros é que vivem para fora.

Sendo assim, que tal uma visão de como o poeta encara o mundo de hoje com a perspectiva de seus 82 anos de idade e poesia?

Tirando algumas coisas, o mundo é sempre o mesmo. A gente carrega o mundo dentro da gente, o mundo particular, individual, que não muda. O que muda são as circunstâncias exteriores. Mas a gente não muda, nem mesmo com o passar da idade. Eu me sinto apenas na oitava edição de mim mesmo; é o mesmo livro. Eu não vejo diferença alguma. Hoje é mais difícil viver do que no tempo de minha mocidade, justamente por causa dessas circunstâncias exteriores. Naquele tempo quase não havia circunstâncias exteriores! (Gargalhadas.) Era mais fácil viver, barbaridade! Agora é mais fácil morrer, não é mesmo? Mas tenho razões para acreditar na sobrevivência. Creio que evoluímos. Não acreditar na sobrevivência é como um cozinheiro que começasse a fazer uma bela macarronada às seis horas da manhã e, ao meio-dia, atirasse tudo pela janela. Creio que há esperança de continuarmos a evoluir. Se não a alma, ao menos a espécie.

E a que atribui a dificuldade de existir no mundo de hoje?

Ao excesso de população. À miséria. Hoje, como é que um camarada pobre vai arranjar dinheiro? Ou tirando a quina — o que não é muito fácil, há anos eu não tiro nem um terno —, ou assaltando um banco — eu não tenho coragem para isso —, ou fazendo um casamento rico — mas agora é tarde. São as únicas maneiras de um camarada ficar rico hoje em dia.

O senhor sempre gostou de jogos de azar: loto, jogo do bicho etc. Realmente deseja enriquecer?

Eu já disse num poema que o dinheiro traz comodidade, mas não traz felicidade. Eu nunca quis ser rico, apenas quis ter onde morar, o que comer, beber e me vestir. Para que dinheiro para incomodar?

Mas joga na loto. O que faria se acertasse a quina?

Antes de tudo não contaria para ninguém! (Risos.) Depois, daria uma quantia para instituições de caridade que tivessem a sua seriedade comprovada, metade para meus herdeiros naturais e o resto... Para que eu ia guardar todo esse dinheiro?

Quem sabe se doasse para a Casa de Cultura Mário Quintana?

A Casa de Cultura? É, é muito bom aquilo, fazem muita coisa. Mas eu nunca vou lá! (Risos.) Sou um comodista.

 Então o título do livro A Preguiça como Método de Trabalho não era uma licença poética?

Não, não sou preguiçoso. Afinal de contas, um poeta trabalha 24 horas por dia. Mesmo que ele não esteja fazendo nada, está acumulando histórias. O que não tem é hora fixa de trabalho. Aliás, é muito bom fazer poemas. Acho que todo mundo devia escrever poesia. Todo poema é uma tentativa de auto-superação, faz bem para a alma. Pode até não dar certo, mas não tem importância. Sem dúvida, vale a pena fazer poema... desde que não venham me mostrar depois! (Risos.)

É tão desagradável assim ler poemas alheios?

Quando descubro um bom poeta fico tão contente que é como se eu mesmo tivesse feito o poema. Mas a maioria... Entretanto, é necessária a maioria. E preciso haver muitas chiquinhas-gonçalves e não-sei-quem-da-silva para surgir uma Cecília Meirelles. E necessária toda aquela efervescência para brotar a flor.

E quais novas flores têm nascido no canteiro da poesia nacional?

O que eu vejo de bom no Brasil atualmente é que o pessoal não está mais se alistando em escolas. Cada um segue a sua própria linha. Se alistar numa escola poética é o mesmo que embarcar num navio. Quando o navio naufraga — quer dizer, quando a escola passa de moda — todo o povo pula. Agora vai cada um no seu barquinho; quanto a chegar à outra margem, isso vai depender do esforço de cada um. Mas eu só conheço bons poetas que já estão velhos. O mais novo, o Walmir Ayala, também já está velho, tem cerca de 50 anos. Tem também aquele... como é o nome daquele que me chamou de “animal da palavra”? Como é? Ah, o Ney Duclós. O poema é bom. Diz: não sei o quê... “brontossauro da cidade de vidro... borboleta amarela na floresta queimada! Desconfie da sua fala mansa. Ele é o flagelo de Deus e vocês não sabem...” O rapaz é muito bom. O poema está no seu livro Outubro.

E depois de Porta Giratória, o que vem?

Meu próximo livro reunirá 120 poemas selecionados entre 210, porque sou muito exigente comigo mesmo. Irá se chama A Cor do Invisível. Estes poemas são de várias épocas. Tem um de 1925, quando eu tinha apenas 19 anos.

Este título tem algum significado oculto?

Eu acho que o título é bastante claro e diz respeito ao mundo intelectual que o poeta exprime por meio de imagens. Um livro de poemas é um livro de figuras. Um pensador, um filósofo, pensa por meio de associação de idéias. Já o poeta pensa por meio de associação de imagens, ou seja: dá colorido ao mundo da invisibilidade. Não sei se expliquei direito. Mas, para que explicar nomes? Mal comparando, é o mesmo que perguntar a Deus o que ele quis dizer com a Criação. Eu, por exemplo, troco muito os nomes e passo muita vergonha. Às vezes encontro um velho amigo e digo: “Artur, como vai?” E ele me responde: “Mas eu não me chamo Artur!” E eu fico com aquela cara. Mas agora descobri uma maneira muito boa para evitar essa situação: se encontro um amigo dos tempos de colégio e digo: “Oh, Alfredo, como vai?”, e ele me diz que não se chama Alfredo, eu então lhe pergunto: “Por quê?” Aí é ele quem fica com cara de tacho! Nesta questão de nomes, entretanto, perdi uma vez para uma senhora, dessas que perguntam o que a gente quis dizer com um poema. Queixou-se de que o poema era nebuloso e eu lhe respondi: “E o que quer dizer uma nuvem?” E ela: “Depende: às vezes quer dizer chuva, às vezes, bom tempo.” Tenho de confessar que essa eu perdi. (Risos.)

E o seu affair literário com a Bruna Lombardi, a quantas anda?

A Bruna é um elixir para mim. Ultimamente ela não me tem escrito; anda muito vagabunda. Eu também não escrevo. Mas somos bons amigos. Quando eu a conheci, ela tinha 24 anos. Recentemente, em primeiro de agosto, ela fez 36. Digo isso assim porque ela é uma criatura tão extraordinária que não se importa que a gente diga a idade dela. Gostei muito de seu último livro de poesias, O Perigo do Dragão. É um livro em que se revela a mulher inteira, sem preconceitos. É um livro corajoso. Também li o seu Diário do Grande Sertão.
          
E que tal achou o desempenho de sua musa na minissérie da tevê?

Ao que parece, Diadorim é um papel difícil.  Mas a verdade é que não cheguei a conhecer Guimarães Rosa e não consegui lê-lo. Aquele estilo dele de inventar palavras... eu tinha impressão de que subia uma ladeira de cascalho. Por que não falam de Euclides da Cunha? O pessoal se baba todo na frente do Guimarães Rosa e ignora o Euclides da Cunha porque acha difícil. Esse pessoal moço acha difícil o Euclides da Cunha, mas aquela orquestração dos períodos dele parecia uma sinfonia! Um ritmo amplo... aquilo chega a ser poesia épica, transcende a prosa.

Sabe-se que, apesar de haver traduzido grandes obras da literatura inglesa, o senhor nunca soube falar inglês. Como vão as suas aulas de conversação?

Para traduzir, aprendi inglês por mim mesmo, sozinho: eu, uma gramática e um dicionário. No fim, sabia ler inglês, mas lia como estava escrito. Afinal de contas, fui ó primeiro a traduzir Virginia Woolf para o português, uma tradução muito elogiada. Mas ainda não comecei as minhas aulas de conversação por causa da surdez. Faz uma semana que inaugurei este novo aparelho. Antes, entendia tudo trocado e se começasse as aulas eu aprenderia errado. Agora posso ouvir o meu curso de inglês em discos. Inglês da Inglaterra, bem entendido. O bom inglês é aquele falado pelos mordomos dos filmes de suspense. (Risos.) Engraçado, né? O pessoal acha graça nessa história de aprender inglês aos 82 anos. Mas a gente precisa fazer projetos em longo prazo para desafiar o diabo.

E o senhor não sente saudade de seus tempos de boêmia, seus bares de fé, amigos de copo? Como eram as suas farras adolescentes?

(Gargalhadas.) Naquele tempo não havia farra. Bebida era chope e cachaça; agora é que inventaram essas ervas. Meu companheiro de bar era o Augusto Meyer, grande poeta. Já o Veríssimo não bebia, não fumava, era um santo! Nos reuníamos no Chalé da Praça Quinze. O Augusto e eu preferíamos os bares Hubertus e Lilliput, um bar pequenininho cujos donos gostavam muito de literatura e fiavam para os poetas — imagine que coisa horrível! Naquela época a gente também tinha artistas prediletos. A nossa querida era a Greta Garbo, para quem escrevi duas poesias. Uma dessas foi tão resumida que acabou em dois versos. Não chega nem a um haikai, que tem três. Agora, a pedidos, vou publicar no próximo livro o texto integral, os 18 versos do poema.

E como o poeta encara o advento da AIDS, a mudança dos costumes em função da nova epidemia?

Sempre há uma peste, uma doença para flagelar a humanidade. Deve ser um dos remotos desígnios de Deus! (Gargalhada.) Mas é melhor deixar Deus em paz. Não sou religioso, mas acredito na segunda pessoa da Santíssima Trindade: Jesus. Isso porque há testemunhos históricos de que ele viveu entre nós. Agora, quanto ao Espírito Santo, creio que ninguém saiba o que é.

Falando de política, alguma coisa de novo sob o sol?

Antes, as manifestações populares eram dissolvidas pelas brigadas. Hoje, a oposição faz comício nas escadas da Prefeitura, fala-se. Ameaça de golpe? Sempre houve ameaça de golpe. Sempre existirão marechais deodoros. Mas a coisa está bem melhor.

Sei que o senhor não gosta de falar sobre a Academia, mas...

Eu não gosto de falar da Academia porque pode parecer a fábula das uvas verdes. O que aconteceu de fato nos episódios de minhas candidaturas é que o pessoal aqui do Sul achou que deveria haver outro gaúcho na Academia além do Viana Moog. Fui indicado. O que podia fazer? Dizer que não? A verdade é que fiquei encantado quando não fui eleito. Mas não pretendo falar sobre a Academia. Nem mesmo dizer que não pretendo falar.

As crianças e a infância estão sempre presentes em sua poesia e...

Certa vez, quando ainda morava no Hotel Majestic, eu estava na porta de um bar e uma guriazinha de seus 17 anos atravessou a rua, veio em minha direção e disse: “Eu vim aqui só para lhe dar um oizinho’.” Eu fiquei encantado com o “oizinho”. Antigamente as crianças não se animavam a falar com os adultos. Agora é o contrário. Os adultos é que têm que se calar.

Poeta...
Vai me perguntar mais alguma coisa? É que eu estou tão cansado...

Entrevista publicada em Ele Ela, setembro de 1988 

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Obsessor



Eu ESTava furioso com alguém. Mais do que seria capaz de admitir conscientemente. Talvez por isso, certa tarde após a feijoada, adormeci e, sem que me desse conta, vi-me caminhando em meio a um deserto de dunas intermináveis. Era um sonho aborrecido, certamente agravado pelas fermentações resultantes do almoço suntuoso e pelas emanações dos espíritos então consumidos — mais por hábito de que por gozo já que, àquela altura da vida, trafegava em um estado ambíguo de plácida inquietude no qual nada me satisfazia, embora nada me fizesse a menor falta.
A caminhada era extremamente penosa. O sol abrasador ia alto no céu, eu sentia fome, sede, a areia fofa e escaldante chegava à altura dos joelhos e eu já estava firmemente disposto a puxar a alavanca vermelha e passar para outro sonho menos enfadonho quando, ao longe, divisei, não um oásis, não uma fonte de águas cristalinas e restauradoras, não a entrada de uma caverna mágica repleta de tesouros, tampouco as dobras sinuosas e flutuantes de um tapete voador capaz de me tirar daquele apuro, mas, sim, as extremidades protuberantes de tendas coloridas que se espalhavam por uma ampla extensão do deserto e cuja placa que encontrei à entrada anunciava como sendo uma Extraordinária Feira de Mistérios, Maravilhas, Bizarrices e Variedades.
Ah, eu poderia ter me detido em qualquer uma daquelas tendas: odaliscas seminuas dançando ao som de lânguidos tambores; refinadas casas de pasto donde exalavam aromas irresistíveis e diante das quais os donos apregoavam maravilhas culinárias montando avestruzes, tigres e rinocerontes; tendas alegres, tomadas de música, alarido de vozes e tilintar de taças; outras repletas de alfarrábios e objetos encantados, todos muito antigos e raros, como ampulhetas mágicas capazes de reverter o tempo e permitir que se reparassem os erros do passado; espelhos habilitados a projetar eventos ainda não ocorridos e prevenir desgraças e catástrofes futuras; cornucópias de grãos, vinho, ganja, ouro... todo um acervo de assombros.
Quis o destino, porém, que, em meio a tanta maravilha, tantos irrecusáveis apelos, meus olhos se vissem atraídos para uma tenda modesta erguida em uma das aléias secundária da feira.
A princípio, desagradado com o aspecto geral da baiúca, tentei voltar os olhos em outra direção; sem resultado. Por algum estranho sortilégio, e por mais que enveredasse por outros caminhos, sempre acabava diante daquela tapera. Era uma atração irresistível embora nada naquela tenda alquebrada parecesse realmente digno de nota. As estacas que a sustinham pareciam a ponto de ceder à podridão da idade e a lona de cor indefinida estava muito gasta e desbotada, com alguns furos junto ao topo do mastro — o que certamente não deveria ter muita importância já que naquele deserto nunca chovia, mas que contribuía, e muito, para o aspecto arruinado do conjunto.
Pouco abaixo do mastro, uma placa de zinco amassada nas bordas sobre a qual algum caprichoso calígrafo grafara em letras de espetáculo circense:

Dr. Luis C. Araújo
OBSESSOR

Corri os olhos pelo interior da tenda, que descobri ocupada por uma fileira de enferrujados gabinetes de arquivos, algumas estantes esparsamente ocupadas por livros de lombadas ensebadas e alguns enfeites de louça e vidro de extremo mau gosto. Ao fundo do aposento, através de uma névoa de fumaça de charuto vagabundo, mal e mal divisei uma escrivaninha surrada por trás da qual refestelava-se o sujeito.
Ao dar com a figura gorducha, suarenta e mal barbeada, apertada dentro de um mal ajambrado terno de Tergal puído nos cotovelos, tive vontade de dar meia volta e retornar ao alegre burburinho da feira. Antes, porém, o sujeito abriu um sorriso de dentes amarelados de nicotina e exclamou:
— Seja muito bem-vindo! Em que posso ser útil?
Desconsertado, dei a desculpa padrão:
— Nada, obrigado. Só estou olhando.
Mas o sujeito conhecia bem o riscado e emendou:
— Poderia ajudá-lo a escolher algum de nossos serviços?
O tom arrogante e malicioso de alguém que estava a ponto de me fazer uma oferta evidentemente desvantajosa me cativou de algum modo. Sempre admirei os canalhas declarados.
— Bem, em realidade, não faço idéia do que tenha a oferecer.
Ele sorriu como se já tivesse ouvido aquela resposta um milhão de vezes.
— Ah, certamente deve sabe. De outro modo, não teria entrado aqui. — O sujeito afastou a cadeira, cruzou os pés sobre o tampo da escrivaninha e entrelaçou os dedos das mãos atrás da cabeça. — Mas já que insiste, deixe-me fazer uma pequena apresentação. A LCA Obsessores Ltda. é uma empresa especializada em obsessões. Nossos técnicos são especialistas treinados para levar a cabo missões de diferentes naturezas obsessivas, em todas as esferas cósmicas e planos dimensionais do universo conhecido. — Ele fez uma pausa e, após uma careta de desagrado, retificou: — Ao menos naquelas aonde as obsessões funcionam, que, afinal, são a grande maioria.
— Mas o que, exatamente, faz um obsessor? — perguntei, disposto a por fim à lengalenga introdutória e ir direto ao assunto.
Ele sorriu, satisfeito, como se estivesse ansioso para que eu fizesse a pergunta.
— Um obsessor é o mais eficiente instrumento de vingança que alguém pode utilizar contra um inimigo. Atire uma bomba atômica na cabeça do infeliz e estará lhe fazendo um favor. Agora, solte um obsessor bem treinado no seu rastro e o cretino rezará para não ter nascido. Durante várias reencarnações! — Ele recolheu os pés do tampo da escrivaninha e acendeu uma guimba de charuto que escolheu no cinzeiro lotado.
— Veja — prosseguiu em um tom de voz muito didático, quase paternal —, vingança não é coisa para amadores. Um sujeito lhe faz uma grande cachorrada. Por exemplo: destrói a sua aldeia, mata a sua mulher, extermina a sua família, seqüestra os seus filhos, rouba o seu amor, seu emprego, sua dignidade, envenena o seu cão, o que seja. E o que você faz? Se lança contra ele. Com fúria. Com gana. Com medo. E, infelizmente, com a desastrada incompetência de qualquer homem de bem que se meta a fazer coisas de bandido. Poderá até mesmo matá-lo. Mas e daí? O que ganharia com isso? Coisa nenhuma. Certamente o resto da vida em uma cela de cadeia enquanto o canalha lá em cima planeja a volta para outra existência de facínora. Talvez ainda chegue a tempo de estuprar a sua neta!
 Subitamente, lembrei-me de meu recente desafeto. E comecei a me interessar pela história.
— Com um obsessor, entretanto, você contará com os serviços de altíssimo nível de um especialista intensivamente treinado para transformar vidas alheias em um inferno. Metódica e cientificamente. Sem paixões, sem arrebatamentos. Apenas a mais pura e total eficiência. E a certeza de um trabalho bem feito.
Ele tirou uma baforada do charuto e sorriu.
— Se alguém procura um obsessor profissional, certamente deve ter motivos de sobra para desejar o pior para o inimigo. — Ele olhou para mim com olhos pequenos e maliciosos e voltou a sorrir. Involuntariamente, desviei o olhar. — E nós da LCA Obsessores Ltda., estamos plenamente preparados para satisfazer as necessidades de nossos clientes. Temos planos de obsessão cobrindo dezenas de existências garantidamente miseráveis. Temos também o Plano Master Plus, um tanto mais caro, mas que, por outro lado, garante a obsessão eterna e indefinida de um mesmo espírito através dos milênios, sem franquia ou limite máximo de reencarnações; isso, é claro, se no meio tempo o infeliz não conseguir evoluir para um plano superior aonde não tenhamos jurisdição, o que é pouco provável. Ninguém que seja atormentado por um de nossos especialistas tem cabeça para pensar em auto-superação ou elevação espiritual.  
A idéia era interessante.
— Mas, diga-me — perguntei —, como exatamente age um obsessor? Quais sofrimentos impõe às suas vítimas?
— Ah, de todo o tipo! — O rosto do sujeito se iluminou como se eu inadvertidamente tivesse acionado o interruptor de um letreiro de neon. — Basicamente, dedicam-se a atormentar os vivos e impedir o seu desenvolvimento espiritual. Agora, o modo como fazem isso varia de caso a caso. E de especialista para especialista. Você jamais verá uma situação semelhante. Cada obsedado e cada obsessor são indivíduos únicos, e as possibilidades de interação entre eles são praticamente infinitas. Há infinitas maneiras de se destruir a vida de alguém. Basta analisar, esperar. E agir na hora certa. Carinhosamente, costumo chamar os meninos de “meus pequenos artistas”. Cada um deles tem o seu estilo próprio e inconfundível. E alguns são absolutamente geniais. Muito melhores do que jamais fui em meus tempos no front de batalha. É difícil crer que tenham sido treinados por mim...
— Então você não se encarrega pessoalmente dos casos?
— Ah, não. Não mais, pelo menos. Já tive os meus dias de glória. Hoje, deixo isso para os garotos. A função de obsessor é extremamente desgastante. Pede espíritos mais jovens e mais bem dispostos. Cuido dos contratos, da manutenção do negócio, da contratação e treinamento de principiantes. Também dou uma mão na logística, na elaboração dos planos de obsessão, participo do planejamento de novos tormentos...
— Tormentos? De que tipo?
Ele acendeu outra guimba de charuto naquela que ainda mantinha acessa entre os dedos, expeliu duas fedegosas baforadas e respondeu:
— Trabalhamos com detalhes. Sutilezas. De nosso plano espiritual, não temos muito poder sobre a matéria ou fenômenos físicos. Mas os poucos milionésimos de joules de energia que ainda podemos manipular podem operar maravilhas.
— Como assim?
— É uma técnica muito sofisticada que teria prazer de explicar amiúde em outra oportunidade. Por ora, basta dizer que, com um pouco de treinamento, podemos utilizar essas minúsculas partículas de energia para inverter micro-campos magnéticos, interferir em processos elétricos do cérebro humano, corromper sinapses... Recentemente, com o advento da informática, descobrimos que também podíamos fazer o mesmo com os computadores de nossos obsedados. Você não faz idéia do campo que isso abriu para a prática da obsessão moderna...
— Faço idéia — respondi, subitamente tomado por um profundo desprezo pelo sujeito asqueroso.
— Imagine, por exemplo, uma pessoa extremante talentosa, que decida dedicar a vida a um tipo de tarefa que exija muito controle e concentração. Digamos, operador de guindaste, piloto de helicóptero, controlador de tráfego, neurocirurgião... Agora, imagine um obsessor habilidoso, capaz de estimular e amplificar certos fatores dispersivos no cérebro dessa pessoa. Às vezes, um simples ajuste no volume da audição, uma pequena calibrada no brilho e no contraste da visão, certa supersensibilidade para gostos e aromas, e o sujeito fica incapacitado de se concentrar em qualquer coisa mais complexa que um jogo da velha!
Senti-me levemente nauseado, um incômodo lampejo de reconhecimento lentamente despertando nas camadas mais profundas de minha consciência.
— Agora, se o obsedado tiver alguma pronunciada falha de caráter, tudo fica mais fácil — prosseguiu. — Alcoólicos, narcômanos e tabagistas são presas fáceis. Mas gente irascível e de pavio curto também é um prato feito. Bastam pequenos estímulos nos lugares certos do cérebro e... bum! Explodem como frascos de nitroglicerina. Basta esperar o momento certo para precipitar as explosões, e a vida do sujeito ficará para sempre comprometida.
Ele acendeu outro toco de charuto. Desajeitado, deixou cair algumas brasas sobre o colo. Levantando-se de supetão, afastou-as com as mãos espalmadas, mas não a tempo de evitar que um cheiro nauseabundo de Tergal carbonizado tomasse conta do ambiente.
— Como disse — concluiu ele, uma careta de contrariedade ao dar com o estrago na calça do terno —, as possibilidades são infinitas. Por isso, antes de darmos início a um plano de obsessão, fazemos um estudo completo e detalhado das vidas passadas do obsedado, atentando para detalhes, procurando brechas, pontos fracos, atalhos. E, uma vez estabelecidos os objetivos, nossos especialistas não descansam até cumprirem a missão que lhes foi designada.
Novamente fui assediado por um inexplicável surto de náusea. Algo naquele sujeito, naquela cena, parecia-me desagradavelmente familiar. Como a lembrança de uma antiga dor de dentes, de um esquecido furúnculo inflamado na nádega.
— Do modo como fala, dá a entender que seus especialista são infalíveis — disse eu, tentando reprimir o mal estar. — Vocês nunca cometem erros? Nenhum de seus obsedados consegue escapar à influência de sua obsessão?
Ele não gostou da pergunta. E demorou algum tempo antes de responder, evidentemente aborrecido:
— Não, não somos infalíveis. Sempre há um ou outro desgraçado a nos estragar a folha de serviços. Mas devo adiantar que são poucos. Estatisticamente, somos bem sucedidos em oitenta e sete por cento dos casos. É claro, existem obsedados resistentes, duros na queda. Mas, sempre que nos vemos às voltas com um obsedado mais rebelde, lançamos mão de um engenhoso artifício: o obsessor encarnado.
— Como assim?
Ele sorriu.
— Nossos especialistas preferem, é claro, trabalhar no plano espiritual. Para isso foram treinados. Mas existem umas poucas dezenas de obsessores especializados em atuar no plano material. Ganham bem mais do que os seus colegas do lado de cá, dada a natureza insalubre do meio onde atuam. Nascer e viver, você sabe, dói uma barbaridade. 
Foi a minha vez de esboçar um sorriso desanimado.
— É uma última alternativa. Se, por um lado, o obsessor encarnado ganha maior poder para lidar com a matéria, por outro perde a onisciência e a clareza de sentidos que nos é natural no mundo dos espíritos. Por isso, suas missões devem ser muito simples e objetivas. Em realidade, são sondas robotizadas, se me permite a metáfora, programadas para realizar tarefas específicas.
— Como o que, por exemplo?
— Aqui, também, as possibilidades são quase infinitas. Imagine, por exemplo, um obsessor encarnado como mãe, mulher ou “melhor amigo” de um obsedado, especialmente programado para transformar a vida daquela criatura em um inferno? Para isso, é claro, é preciso um especialista muito habilidoso, o que é muito difícil de encontrar atualmente. Mas não precisamos ir tão longe. Basta programar o obsessor para que, em certo dia e hora pré-determinado, avance um sinal vermelho, se atrapalhe com um bisturi, aperte o botão errado... e estragamos a evolução de uma criatura por toda aquela existência. É claro que o objetivo primário não é o homicídio, embora, em certos casos, matar seja o único meio de interromper a evolução de um espírito mais obstinado...
A náusea atingiu outro pico intolerável e então, subitamente, dei-me conta. Eu conhecia aquele sujeito. Não pessoalmente, é claro. Mas eu o conhecia muito bem. E de longa data. Já tive os meus dias de glória, dissera ele havia pouco. Hoje, deixo isso para os garotos. A função de obsessor é extremamente desgastante. Subitamente, a náusea desapareceu, tão misteriosamente quanto se instalara. E eu tive absoluta certeza do que fazer em seguida.
— E qual seria o preço de um plano completo, Master Plus, desses que garanta a obsessão de um espírito pelo século dos séculos? — perguntei, interessado.
Ele quase suspirou, aliviado, por termos voltado a falar de negócios.
— Comparado com o que oferecemos? Uma verdadeira ninharia. Pedimos apenas que nossos clientes compartilhem conosco parte da culpa. Não é preciso ser muito esperto para compreender a vantajosa relação entre custo e benefício de uma transação dessa natureza. Afinal, quanto mais canalha for o seu desafeto, menos culpa você terá no cartório. Sei de um caso em que o cliente não apenas foi absolvido como acabou premiado pelas altas instâncias espirituais pelos serviços prestados!
Eu sabia que era mentira, bazófia de vendedor tentando engambelar um comprador ingênuo. Mas fingi acreditar em cada palavra do que ouvia.
— Não se esqueça, também, que oferecemos uma garantia estendida de nossos serviços, em troca de um pequeno acréscimo nas tarifas.
— Como assim?
— Se, por um acaso, não sejamos capazes de cumprir uma missão, caso haja algum conflito de interesses envolvido, o caso é imediatamente transferido para outra empresa. Como deve imaginar, não somos a única firma de obsessão do mercado.
Gostei dessa última parte.
— E como fazemos para selar o pacto?
Ele pareceu surpreso com a rapidez com que aceitei o negócio. Sorridente, apontou para o outro extremo do cômodo, onde havia uma pequena cabina.
— Basta entrar ali, pegar uma cédula, preencher o nome de seu desafeto e depositá-lo na urna.
— Simples assim?
— Claro. Por que complicar?
— E posso escolher qualquer pessoa?
Ele assentiu.
— Desde que seja um espírito que vague nas baixas esferas... Como já expliquei, não temos jurisdição em planos espirituais mais evoluídos.
Ele percebeu a minha expressão de contrariedade.
— Algo o perturba?
— Sim — respondi, simulando insegurança. — É que não tenho certeza se a pessoa que desejo obsedar ainda se encontra em uma baixa esfera espiritual. Em verdade, nem sei se está encarnada!
Ele voltou a sorrir.
— Mas isso não tem a menor importância! Veja: caso a pessoa escolhida tenha conseguido elevação espiritual, paciência. Seu voto cairá no vazio, e o acordo será desfeito. Entretanto, se ela ainda vagar aqui por essas baixas esferas, o que é o mais provável, esteja encarnada ou não, ah, meu amigo, nós certamente a pegamos mais cedo ou mais tarde. Como deve saber, todo espírito precisa fazer visitas periódicas ao mundo material para exercitar o perispírito e desenferrujar os ossos. E a escolha da urna é implacável. Não há espírito inferior que esteja imune aos seus desígnios.
Ele se levantou da cadeira e apontou para a cabina.
— Então, o que está esperando?

Ao sair da tenda lúgubre, sentia-me leve, limpo, restaurado, livre de uma angústia corrosiva que havia muito me azedava a alma. Fizera o que era certo. O que era justo. E a areia do deserto já não mais me obstava o passo.
Aliviado, aproximei-me de um grupo de unicórnios amestrados que se apresentava para uma pequena platéia. Ali me detive por um longo tempo, observando as suas mágicas evoluções sobre o picadeiro, divertindo-me com os comentários maravilhados da criançada em torno até que em dado momento, acima do alarido da feira, ouviu-se um berro medonho que fez estremecer as estacas de todas as tendas e calou temporariamente a platéia atônita.
Fui o único a não ser pego de surpresa. Em verdade, eu já esperava por aquilo. Ansiosamente. E foi justo por isso que ali me detive, ansioso, à espreita. Ainda assim, e para o espanto de todos ao meu redor, não fui capaz de reprimir uma escandalosa gargalhada ao imaginar a cara que deve ter feito o sujeito ao abrir a urna e ver o nome que eu grafara na cédula: 

Dr. Luis C. Araújo
OBSESSOR

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A mosca dourada



Há aqui na roça uma mosca dourada, tão bonita e estilosa que parece ter sido inventada pelo Steve Jobs. Mas é uma praga. Quando fui tirar a fotografia da árvore tombada nos fundos de casa, fui mordido por uma dessas criaturas fashion-design. O polegar de minha mão direita assumiu o tamanho e o formato do dedão de meu pé esquerdo e assim ficou até agora pouco, antes da novela, quando desinchou por completo. Esperemos apenas que não tenha me inoculado suas malditas larvas, a desgraçada...

A guerra das árvores



ALTO VERÃO NO SERTÃOZINHO. As árvores na beira dos barrancos tombam sobre os caminhos, de tanto que se debruçam para abraçar o sol. E é de dar dó ver um gigante daqueles prematuramente atravessado no meio da trilha, derrubado por sua cupidez por uma estrelinha distante, e absolutamente indiferente à sua sorte, ao seu amor, à sua paixão. 
   Quem as vê assim, quase imóveis, levada pela brisa vespertina, há de pensar que são criaturas dóceis, sábias e inertes, mas a verdade é que o negócio das árvores é uma concorrência feroz, suja e desleal em busca de um melhor lugar ao sol. Elas se empurram, se enroscam, se engalfinham, se acotovelam até finalmente derrubarem umas às outras, em um lento embora mortal combate do qual nós, desavisados seres humanos, sequer nos damos conta, porque ocorre em um tempo infinitamente mais lento que o tempo que duram os combates que travamos contra os nossos semelhantes. 
   À primeira vista, é impossível reconhecer aquilo como uma guerra mas se de algum modo pudéssemos acelerar o filme, veríamos um espetáculo terrível de tentáculos monstruosos obstruindo, enforcando e asfixiando os concorrentes em uma luta cruel pela sobrevivência, de modo que seríamos obrigados a reconhecer que a guerra das árvores e real e inexorável. 
   E que a vida tende à morte em toda parte. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Máquina do Tempo


Por trás da inocente aparência de uma simples antena de celular, o mecanismo acima é, em realidade, uma máquina capaz de me tirar das trevas da Pré-História diretamente para a mediocridade e o caos do século XXI. Após três anos miseráveis perdido no espaço e no tempo, posso finalmente ver filmes no Youtube, chatear pelo Facebook e, mais importante, transformar o Skype em meu principal dispositivo de telefonia já que a Vivo continua Morta por aqui.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Forum


Equipe da revista ELE ELA, 1985

Há muitos e muitos anos, em uma galáxia muito longe daqui, em uma época em que ainda não havia celular, Internet, sites pornográficos e encontros virtuais, um tempo de trevas e ignorância, sem BBB, sem Facebook, sem Twitter, sem nem mesmo um modesto ICQ, havia uma seção em uma extinta revista erótica sediada no Rio de Janeiro que mobilizava as atenções, corações, mentes e fantasias sexuais de legiões brasileiros, o Fórum. Visto com olhos contemporâneos, tratava-se de uma bobagem: a mera transcrição de cartas enviadas pelos leitores — datilografadas ou escritas a mão! —  narrando suas aventuras e fantasias sexuais. Naquele tempo porém, com o país recém-saído de duas longas décadas de ditadura, censura e feroz repressão às liberdades individuais, a seção tinha um enorme apelo.
Quando ainda em meu segundo ano de faculdade, mas já como redator contratado da revista, fui encarregado de administrar a seção, cargo que exerci por mais de um ano, até chegar outro calouro desavisado para ocupar o meu lugar. O texto abaixo reúne algumas lembranças desses tempos gloriosos em que o sexo era sem culpa, ninguém transava com camisinha, e a DST mais braba era curada com uma simples injeção de Benzetacil.

Em certa sexta-feira após o expediente, a pretexto de comemorar o aniversário de um colega, a redação se reuniu em um famoso bar da Glória para tomar o inevitável suco de laranja das 20h. É claro que o papo não podia girar a respeito de outra coisa a não ser a revista e, por extensão, mulher. Lá pelas tantas, já empolgados por uns três ou quatro refrescos, ouvimos uma voz feminina vinda do fundo do bar: “Aí, marmanjos! Vocês é que são os tais da grutinha?” Silêncio sepulcral. Todos os olhares convergiram na direção de onde vinha a voz e encontraram não uma, mas um grupo de quatro mulheres muito bem apanhadas, numa congregação que mais lembrava um comitê popular do movimento feminista. E, a julgar pelos olhares que nos lançavam, evidentemente eram membros da ala radical.
Meio sem graça, alguém respondeu com a voz trêmula:
“E, mais ou menos, né...”
A pergunta veio direta, na bucha:
“Vem cá, esse Forum de vocês é verdade ou mentira?”
Não pudemos deixar de rir. Sempre a mesma pergunta! E claro que daí para frente as mesas se juntaram, as dúvidas foram esclarecidas e pelo menos dois redatores da revista tiveram pretextos de sobra para escrever um Forum na manhã seguinte. Mas não o fizeram. Não era preciso. Nunca foi preciso.
Outro dia, conduzido pelo RP da empresa, um grupo de publicitários de diversas agências visitou a redação. Bastante inibido, um deles se adiantou ao grupo e explicou:
“Nós viemos aqui para...”
Não foi preciso terminar. Macaco velho, o chefe de redação emendou:
“Para saber se o Forum é verdade ou mentira, né?” E, sem esperar a resposta, pousou sobre a mesa um caixote de madeira contendo aproximadamente 900 cartas de experiências íntimas dos leitores. “São as do mês...”, completou falsamente modesto.
E claro que, apesar dos insistentes apelos, não deixamos que vasculhassem a caixa. Afinal, entre outras virtudes, sempre nos gabamos do sigilo escrupuloso que oferecíamos aos nossos leitores. Mas até hoje fico a imaginar as loucuras que aquela junta publicitária não faria caso colocasse as mãos no material. Pois não havia gente que chamava o Forum de “termômetro informal da sexualidade brasileira”?
De uma vez por todas e daqui para a frente: o Forum era verdadeiro e todas as cartas publicadas eram escritas por leitores ávidos por verem publicada a sua peça erótica em nossas páginas amarelas. As centenas de cartas que chegavam por mês eram  lidas por uma equipe de redatores e selecionadas a partir de critérios como qualidade do texto, erotismo e originalidade. Uma vez escolhidas as titulares, as cartas iam  para o estaleiro onde — respeitando-se ao máximo o texto original — eram corrigidos erros de ortografia eventuais e substituídos os termos chulos por correspondentes publicáveis. Mas, igualmente de uma vez por todas, não fomos nós que inventamos esse papo de “grutinha do amor”.
Foi em novembro de 1973, na edição n. 55, que pela primeira vez se viu uma seção com o nome Forum. Entretanto, naqueles tempos bicudos, o Forum era completamente diferente da pícara seção que se tonou posteriormente e se apresentava assim: “Esta é a sua opinião. Escreva para a redação”. Ou seja, cumpria a função de uma seção de cartas e crítica dos leitores. Mas mudou devagarzinho.
Em meados da década de 70, o Forum já publicava cartas (ousadíssimas para a época) com ofertas de trocas de casais, e, por volta de março de 1977, abordava temas como sexo grupal, insatisfação, frigidez e esterilidade, fazendo as vezes de consultório sexual. Mas foi apenas na edição n. 98, de junho de 1977, que o Forum publicou pela primeira vez alguma coisa parecida com uma experiência (ou fantasia) de um leitor. A carta se chamava Um Sabor Muito Feminino Para o Seu Chiclete e dizia: “...Admito francamente minha preferência pelo chamado sexo oral — mais precisamente, o delicioso cunnilingus. Só tenho outro xodó na vida: mascar chiclete. E a novidade, que certamente interessará aos leitores, é que consegui conciliar minhas duas paixões. Toda manhã, antes de sair para o trabalho, coloco um tablete desse chiclete tipo americano dentro das chamadas partes íntimas da minha mulher, enquanto ela faz a sua ginástica matinal. Quando ela termina, retiro o chiclete, refaço a embalagem e vou para o escritório. Passo umas três horas feito louco, antecipando aquele gostinho divino na minha boca, mas agüento firme até quase a hora do almoço, quando tiro do bolso o meu chiclete (que eu apelidei de chiclêta) e começo a mascar... Ah! Vocês não imaginam!”
Gradativamente, entremeadas por cartas curiosas (mas ainda do tipo “doutor, o que eu faço com o meu pinto?’’), as experiências dos leitores foram ganhando espaço na seção. No número 107 apareceu, enfim, o primeiro relato (com começo, meio e fim) de uma relação sexual, intitulado Amor em Mar de Espanha, onde a leitora inaugurou um dos maiores chavões da seção, o termo cavalgar: “... sentindo-o intensamente vivo sob mim, cavalguei-o, a princípio em trote lento, passando em seguida à marcha rápida, para chegar, com imenso prazer, ao galope largo, desatinado.”
Um dos principais argumentos de quem afirma que o Forum não era verídico — ou seja, que suas histórias era forjadas na própria redação da revista — é o que costumam chamar de “linguagem pasteurizada”. Entre muitas cartas de leitores indignados com “a desfaçatez com que são impostas essas ‘cartas de leitor’; evidentemente criadas por imaginativos escritores”, a maior parte argumenta que “obviamente são escritas pela mesma pessoa, uma vez que se valem dos mesmos artifícios semânticos”. Ou seja, o que o indignado leitor queria dizer ao certo é que o Forum não era autêntico porque usava sempre os mesmos termos, como se fossem recursos estilísticos de um único autor. Ledo engano, para responder no mesmo estilo.
A verdade é que, uma vez que a seção se ampliou e se tornou a única desse tipo na grande imprensa brasileira, o Forum criou, por si mesmo, uma linguagem própria, democrática, pública, um estilo geral, gradualmente aperfeiçoado por seus muitos leitores-colaboradores.
Na edição n. 114, a seção Forum finalmente chegou à maturidade, ostentando em sua epígrafe os dizeres: “Esta seção destina-se à publicação de cartas dos leitores sobre suas experiências sexuais e fantasias eróticas.” A essa altura, o Forum já era assunto de salão, mesa e alcova, e mais de uma faculdade de comunicação e psicologia já premiara teses baseadas em seus relatos.
De fato, era uma experiência curiosa manusear tais cartas. Confirmando sua inteira confiança em nossa discrição, os leitores não só enviavam nome e endereço completos, como também cópias xerografadas de suas carteiras de identidade, embora isso fosse absolutamente desnecessário. Já os relatos eram entregas totais, e acreditamos que muitos de nossos correspondente não fossem tão sinceros nem mesmo com o amigo (ou amiga) mais íntimo.
Muitas das cartas recebidas continham algum recado implícito para alguém. E isso ficava evidente quando, uma vez recusada, a mesma carta insistia em chegar, mês a mês, até a nossa capitulação (ou a desistência do leitor). Forum também serviu para aproximar tendências afins (a fim de tudo) e mais de uma vez leitores, encantados com algum relato, escreviam pedindo o endereço deste ou daquele autor anônimo. Nossa atitude foi sempre a mesma: publicávamos a carta, tal qual era enviada, em nossa seção Cartas, na base do “se colar, colou”. O resultado disso foi que as cartas de Forum duplicaram em volume, pois, não bastando o relato original, nossos leitores não se privavam do prazer de contar as experiências sexuais resultantes de encontros travados por nosso intermédio. E Forum partiu para a metalinguagem — o que não tem nada a ver com sexo oral.
A partir da linguagem, podemos traçar toda a trajetória de Forum através dos tempos. A princípio, os relatos apenas sugeriam o ato sexual, fixando-se mais na situação ou na descrição de ambiente e personagens. Termos como “partes pudendas” eram comuns nessa época. Gradativamente, no entanto, a linguagem foi se sofisticando, tornando-se mais ousada e começando a procurar soluções mais originais. E chegou a época das “inhas”. Tudo era “inha”: era grutinha, xoxotinha, bundinha... os leitores caprichavam nos diminutivos, certamente procurando amenizar a crueza de seus relatos. Por isso, muita gente começou a achar que o Forum era escrito pela mesma pessoa.
É bom lembrar que escrever a respeito de experiências íntimas é tarefa complicada. Descrever sensações, tatos, cheiros... enfim, narrar o sexo de forma literária é um desafio instigante. Por isso, toda vez que algum leitor conseguia uma fórmula nova, imediatamente esta fórmula era adotada pelos outros correspondentes. Daí a "linguagem pasteurizada" de que se queixavam nossos críticos incrédulos.
Em certa época, fomos bombardeados por dezenas de cartas escritas pela mesma mulher, narrando as suas aventuras na África, e que invariavelmente citavam as dimensões avantajadas dos membros dos homens daquele continente. Publicamos uma, duas, três cartas mas a empolgada leitora parecia ter um repertório inesgotável de trepadas africanas. Black is beautiful, sim, mas chegou um momento em que começou a encher o saco. Após a sétima carta publicada e a duodécima recebida, encerramos o safári. Continuou mandando suas aventuras africanas e tornou-se      colaboradora exclusiva; mas nunca mais foi publicada. Mesmo porque, lá pela décima aventura ela começou a se repetir, misturando aventuras já narradas com um ou outro elemento original, mas que não justificava a reprise.
Aliás, falando de missivas femininas, convém dizer que a grande maioria delas continham relatos muito parecidos, ao menos em um ponto: seja como e onde for, seja quando for, é inevitável a presença do corno. E começamos a perceber que o adultério é um dos elementos mais freqüentes das fantasias femininas.
Já os homens primavam pela ingenuidade e muitos deles pecavam pelo que convencionamos chamar de sexo estatístico. Enquanto as mulheres procuravam puxar para o lado do romance, do drama psicológico, os marmanjos insistiam em falar de pesos e medidas. Por exemplo: em vez de dizer que a noite foi ótima e que transou com uma mulher maravilhosa, eles diziam:  “Tenho um pênis de 25cm e dei três sem tirar de dentro logo na primeira transa.”
Ao longo desses anos recebemos de tudo. Desde pêlos pubianos caprichosamente aparados e enviados junto com as cartas (“para provar que não estou mentindo”), até relatos eróticos que se poderiam chamar de ótima literatura. E, quando não insistiam em falar no tamanho descomunal de seu membros, nossos leitores conseguiam criar peças cheias de humor e picardia, como a premiada Adão, o Bananeiro, uma das cartas mais sacanas e engraçadas que recebemos.
Ao longo dos tempos, Forum serviu como tribuna livre de nossos leitores, único espaço para a publicação de suas fantasias sexuais. Serviu também como intermediário para aventuras e afrodisíaco para casais entediados. Na pior das hipóteses, Forum serviu, ao menos, para iniciar ótimas cantadas.
Como disse, todas as cartas publicadas eram verdadeiras, escritas pelos leitores, e nunca precisamos inventar nada. Nunca precisamos, o que não impediu que, uma vez na vida e outra na morte, alguns de nós se sentassem à máquina para contar (por mero capricho) algumas de suas aventuras. Era justo, era honesto. Afinal, também somos humanos e alimentamos nossas próprias fantasias...
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