terça-feira, 17 de maio de 2011

Visita inesperada

CINQÜENTA ANOS SE PASSARAM. Mas o Mensageiro sentia como se tivesse dormido toda a eternidade. Ainda sonolento, tentou focar os sensores mas demorou alguns segundos até finalmente dar-se conta de que lá fora, em meio à névoa venenosa do depósito de rejeitos, uma criatura aproximava-se da espaçonave.
   Não era possível ver detalhes de seu corpo e nem de sua fisionomia porque o recém-chegado vestia um traje NBC — nuclear, biológico, químico — dotado de tanque de oxigênio independente. Mas notava-se perfeitamente que era bípede, um par de membros superiores, uma cabeça, um par de olhos, indefectível exemplar da espécie dominante naquele planeta. Trazia a tiracolo uma caixa de metal repleta de ferramentas.
   O Mensageiro esperou que chegasse bem diante da nave e, então, fez-se ouvir através dos alto-falantes externos:
   — Vocês receberam a mensagem?
  O recém-chegado assustou-se com a voz. Mas logo recompôs-se.
    — Se recebemos a mensagem? Mas é claro que recebemos! — “Ótimo”, pensou o Mensageiro. “Fizemos algum progresso.” — Ou você pensou que ia ficar por isso mesmo? — acrescentou o outro. — E mesmo que não o tivessem denunciado, a gente ia acabar descobrindo de qualquer forma.
   Era sempre assim. Toda vez que o Mensageiro pensava estar começando a entender alguma coisa, os alienígenas diziam algo absolutamente incompreensível e ele voltava à estaca zero.
   — Desta vez passa — disse o recém-chegado, enquanto dirigia-se a um poste de luz ali perto. — Mas, da próxima, vou lhe arranjar uma tremenda multa!
   E, sem mais explicações, cortou o cabo de alta tensão que alimentava a espaçonave.

  — Saudações! — disse o Mensageiro meio sem jeito, tentando dar seguimento ao programa. — Sou portador de uma mensagem muito importante, que começou a ser escrita há muitos milhões de anos, em outro sistema solar, e que foi...
   Enquanto o Mensageiro falava, o alienígena guardava a tesoura na caixa de ferramentas.
   — ...e que foi... — repetiu, confuso, enquanto o alienígena fechava a caixa e fazia menção de partir.
   — Ei espere! — gritou o Mensageiro, quase exasperado. — Eu disse que venho de outro planeta!
   O alienígena parou e voltou-se lentamente.
   — Só porque é membro de uma minoria oprimida, você não tem o direito de transgredir. Se quiser usar, terá de pagar.
  O Mensageiro tentou responder qualquer coisa mas o alienígena prosseguiu:
   — A propósito: quando o pessoal da RSI souber disso você estará enrascado. Ninguém está autorizado a pousar neste depósito. Isso aqui é uma área de segurança máxima.
   — RSI? — perguntou o Mensageiro.
   — A secretaria de Rejeitos Sanitários e Industriais. Eles são muito severos. Não costumam aliviar.
   O Mensageiro não sabia o que dizer.
  — Dou-lhe uma semana. É o tempo até receberem o relatório lá em Pi. Se souberem que eu estive aqui e não o denunciei, posso até perder o meu emprego.
   — Você tem certeza de que não quer ouvir o que tenho a dizer? — perguntou o Mensageiro.
   — Outra hora, talvez — disse o outro. E, com um sorriso de falsa intimidade, acrescentou: — Sabe como são as coisas, muito trabalho, pouco tempo para os amigos...
   Em seguida deu-lhe as costas e se foi sem olhar para trás.
   O primeiro contato com uma inteligência alienígena não foi de todo improdutivo. E aquele diálogo aparentemente sem sentido serviu para acrescentar algumas peças fundamentais ao quebra-cabeça inacabado.
   Como sabemos, o Mensageiro era uma máquina. Uma super-máquina, mas máquina. Tinha senso de humor era até capaz de sonhar, habilidade adquirida espontaneamente e que não fora prevista por seus construtores. Mas tinha uma tremenda dificuldade para entender a ironia, o cinismo, o sarcasmo, a desfaçatez, a hipocrisia — artes nas quais os nativos de Hamarquis eram especialistas.
   Contudo, após a visita do funcionário da companhia de luz, passada a frustração e o estupor que o tomou logo a seguir, o Mensageiro finalmente deu-se conta de que tudo o que os alienígenas diziam ou escreviam era justamente o contrário daquilo que realmente pensavam ou queriam dizer. O pior é que ele tinha quase certeza de que faziam isso com a única intenção de escarnecer do interlocutor e demonstrar o quanto o outro era ingênuo ou ignorante.
   “Daí”, pensou o Mensageiro num esforço fenomenal de raciocínio, “quando ele me disse que trabalhava demais e não tinha tempo para ouvir os amigos, não estava querendo dizer que era meu amigo.”
   O Mensageiro pôs-se a pensar e, alguns segundos depois, teve a revelação: “Em verdade o que realmente queria dizer era que estava pouco se importando comigo ou com o que eu tinha a dizer para ele.”
   De posse dessa informação, tudo ficou mais fácil, tudo passou a fazer sentido. E finalmente o Mensageiro pôde ter uma boa idéia de onde estava e quem eram os habitantes daquele planeta, seus costumes, seus modos de vida, sua arte, sua ciência, sua cultura e tecnologia. 
Da série Crônicas do espaço profundo

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